Ciência

Liberação de calor das profundezas do oceano provoca retração do gelo marinho na Antártida

30 de Abril de 2026 às 09:02

A cobertura de gelo marinho na Antártida apresenta retração acentuada desde 2016 devido à subida de calor das profundezas oceânicas para a superfície. O fenômeno foi identificado por boias autônomas Argo e causado por mudanças nos ventos que romperam a estratificação das águas

A cobertura de gelo marinho na Antártida sofreu uma mudança drástica a partir de 2016, interrompendo uma tendência de crescimento que durou décadas para dar lugar a uma retração acentuada e persistente. A investigação sobre as causas desse fenômeno foi realizada por meio de boias autônomas Argo, robôs mergulhadores que monitoram as profundezas do oceano.

Os dados coletados por esses dispositivos indicam que o declínio do gelo foi provocado pela liberação súbita de energia térmica que estava retida em camadas profundas. Diferente das regiões tropicais, as águas antárticas possuem uma estrutura de temperatura invertida, onde o ar resfria a superfície enquanto massas de água mais quente permanecem preservadas no fundo.

Essa separação de camadas, chamada de estratificação, foi intensificada nos últimos anos devido ao aumento das chuvas na região. A entrada de água doce tornou a camada superficial do oceano menos densa e menos salgada, criando um escudo que isolou o calor nas profundezas. No entanto, alterações nos padrões dos ventos romperam esse equilíbrio, misturando as águas e trazendo o calor acumulado para a superfície.

Para o oceanógrafo Earle Wilson, da Universidade Stanford, essa dinâmica oceânica é o fator central que impede a recuperação do gelo marinho. A perda dessa camada flutuante compromete a estabilidade do continente, pois o gelo marinho atua como uma proteção física para as plataformas de gelo costeiras.

Embora a variabilidade natural do clima seja objeto de debate científico, o aquecimento global é apontado como um contribuinte relevante para o processo. A projeção para as próximas décadas é de queda contínua na extensão do gelo, com uma tendência negativa a longo prazo.

Nesse contexto, a expansão do monitoramento via tecnologias autônomas torna-se essencial. A coleta constante de dados nas profundezas é a única maneira de prever se a Antártida retomará seus ciclos de crescimento ou se o calor acumulado continuará a acelerar o degelo, influenciando diretamente o nível do mar.

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