Economia

Expansão do crédito direcionado contribui para a manutenção da taxa Selic em patamares elevados

31 de Maio de 2026 às 06:06

A expansão do crédito direcionado, que atingiu 43,1% do volume total do mercado em março, contribui para a manutenção da taxa Selic em 14,5% ao ano. O Banco Central mantém os juros básicos elevados para compensar a menor eficácia da política monetária no controle da inflação

A expansão do crédito direcionado no terceiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem contribuído para a manutenção da taxa Selic em patamares elevados, atualmente em 14,5% ao ano. Esse movimento, que reverte a tendência de queda observada durante a gestão de Jair Bolsonaro, impacta a política monetária do Banco Central (BC), resultando no segundo juro real mais alto do mundo.

O crédito direcionado consiste em financiamentos com finalidades específicas regulamentadas pelo Conselho Monetário Nacional, como infraestrutura, atividades rurais e imobiliárias. Por contarem com garantias públicas, fontes de recursos mais baratas e subsídios governamentais, essas linhas apresentam juros menores e prazos mais extensos. Em março deste ano, as modalidades subsidiadas atingiram 43,1% do volume total de crédito no mercado, o nível mais alto desde o final de 2019.

A predominância desse modelo de crédito reduz a eficácia da taxa básica de juros no controle da inflação, pois grande parte dos empréstimos não está atrelada à Selic. Para compensar essa perda de potência da política monetária, o Banco Central mantém o juro básico em patamares superiores aos habituais. Esse cenário encarece o crédito para os demais setores da economia, desestimulando investimentos, consumo e contratações.

A série histórica do Banco Central, iniciada em março de 2011, evidencia a disparidade entre as modalidades: enquanto a taxa média do crédito direcionado foi de 9,3% ao ano até março de 2026, os empréstimos de recursos livres somaram 38,8% no mesmo período, sendo quase quatro vezes mais caros.

No governo atual, a intensificação dessas linhas ocorreu com a proximidade de eleições, abrangendo programas como o Plano Safra, Minha Casa, Minha Vida, Desenrola 2.0, Fundo Clima, nova política industrial, além de créditos para taxistas, motoristas de aplicativo, microempreendedores de baixa renda e renegociações de dívidas agropecuárias. O volume de recursos também foi destinado a máquinas agrícolas, caminhões, ônibus, reforma de imóveis e setores impactados por conflitos no Oriente Médio e aumento de tarifas.

Internacionalmente, o Brasil se destaca pelo volume de crédito subsidiado. Com 43% do total, o país supera nações como o México, que possui 26%, enquanto a maioria dos outros países mantém esse percentual abaixo de 5%.

A Associação Brasileira de Bancos (ABBC) confirma que a alta participação de juros favorecidos limita a potência da Selic, embora ressalte que a aceleração recente é menor do que a vista no início da década de 2010, quando a participação chegou a 50% entre 2016 e 2017.

Esse cenário retroalimenta a dívida pública, que atinge 80% do PIB — o maior nível em cinco anos e patamar similar ao da Zona do Euro —, já que a Selic serve de base para a emissão de títulos públicos. O endividamento elevado, por sua vez, exerce nova pressão para a manutenção dos juros altos.

Sobre a dinâmica econômica, o atual presidente do BC, Gabriel Galípolo, mencionou a existência de fatores peculiares que permitem a coexistência de juros reais próximos a 10% ao ano com o desemprego em mínima histórica e inflação acima da meta. Já o economista-chefe da MB Associados, Sergio Vale, defende que a redução dos juros para todos os setores deveria ser promovida por meio de cortes intensos de gastos, em vez da ampliação de linhas de crédito específicas.

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