Educação

Redes municipais de ensino priorizam letramento em relação à matemática na educação infantil

26 de Maio de 2026 às 06:15

Relatório do Itaú Social e Undime indica que 76% dos municípios brasileiros adotam ações de linguagem na educação infantil, contra 48% em letramento matemático. O estudo, com 2.712 redes, aponta dificuldades na gestão de unidades conveniadas e no alinhamento curricular à BNCC

Redes municipais de ensino priorizam letramento em relação à matemática na educação infantil
© TÂNIA RÊGO/AGÊNCIA BRASIL

As redes municipais de ensino no Brasil apresentam maior engajamento em práticas de letramento e cultura escrita do que em estratégias de matemática na educação infantil. De acordo com o relatório Percepções e Desafios da Educação Infantil Pública, divulgado nesta segunda-feira (25) pelo Itaú Social e pela União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime), 76% dos municípios adotam ações voltadas à linguagem, enquanto apenas 48% implementam o letramento matemático.

O diagnóstico, concluído no final do ano passado, baseou-se na participação de 2.712 redes municipais, o que representa 49% do total do país. A amostragem regional variou, atingindo 62% dos municípios no Norte e 33% no Sudeste.

Um ponto crítico identificado é a gestão de unidades conveniadas, contratadas para suprir a demanda por vagas. Cerca de 23% das prefeituras não sabem informar se essas instituições parceiras aplicam as mesmas estratégias de letramento em matemática e linguagem que as redes diretas. Sonia Dias, gerente de Desenvolvimento e Soluções do Itaú Social, defende a criação de mecanismos de acompanhamento e padronização técnica para evitar que surjam desigualdades educacionais entre a rede própria e a conveniada.

No âmbito da organização pedagógica, 63% das redes utilizam a matriz curricular estadual, 34% possuem currículo próprio e 2% não dispõem de currículo para a etapa infantil. Embora 78% dos municípios tenham adaptado o Projeto Político-Pedagógico (PPP) da pré-escola, 37% das secretarias que possuem o documento relatam dificuldades em alinhá-lo às normas da Base Nacional Comum Curricular (BNCC). Esse desalinhamento é ainda mais frequente nas unidades conveniadas.

A transição da pré-escola para o 1º ano do ensino fundamental também é vista como fragilizada. O estudo indica que 17% das redes não planejam a articulação entre as etapas e 13% não utilizam ferramentas básicas de transição, como portfólios de acompanhamento. A dificuldade reside na mudança de um ambiente lúdico para uma rotina de conteúdos, o que, segundo Sonia Dias, pode causar traumas, resistência escolar e atrasos na alfabetização.

Quanto ao suporte institucional, 67% das redes municipais recebem apoio técnico ou de formação das secretarias estaduais. Contudo, um terço dos municípios não possui qualquer suporte estadual, manifestando carências em financiamento, materiais didáticos e capacitação. A análise aponta que a coordenação entre União, estados e municípios precisa evoluir para apoiar redes menores e mais vulneráveis, utilizando recursos como o Fundeb e o Programa Dinheiro Direto na Escola, além de assistência técnica para a gestão desses valores.

Em relação à rotina das Secretarias Municipais de Educação, os dados mostram que 62% apoiam o contato das crianças com a natureza, 58% oferecem formação continuada sobre desenvolvimento infantil e 56% realizam ações para garantir a permanência dos alunos.

No entanto, a gestão enfrenta gargalos estruturais e pedagógicos. A infraestrutura física inadequada é o principal desafio para 23% dos gestores, envolvendo a falta de recursos para manutenção de creches e ampliação de vagas. A inclusão de crianças com deficiência ou neurodivergências é outro entrave, citado por 15% dos entrevistados, demandando investimentos em acessibilidade arquitetônica e auxiliares de sala. Já a oferta educacional para populações do campo, indígenas e quilombolas é implementada por apenas 28% das secretarias.

A formação docente também apresenta lacunas. Os gestores destacam a falta de equipes para ministrar cursos, a baixa adesão dos profissionais e a carência de formação específica sobre desenvolvimento infantil. Enquanto temas pedagógicos são abordados mensalmente, a diversidade e inclusão são tratadas semestralmente. Além disso, 20% das redes não oferecem formação continuada para as unidades conveniadas. Sonia Dias ressalta que a capacitação permanente é essencial para corrigir deficiências da formação inicial, especialmente de professores formados exclusivamente via ensino a distância (EAD).

Por fim, o relatório indica que a expansão do tempo integral e a gestão de novas vagas em creches são desafios para 8% dos municípios. A conclusão do estudo é que as políticas públicas devem migrar do foco exclusivo na abertura de vagas para a qualificação dos ambientes educacionais.

Notícias Relacionadas