População cria site para rastrear mais de 40 mil desaparecidos após terremotos na Venezuela
Dois terremotos atingiram a Venezuela na quarta-feira, com um site independente registrando mais de 40 mil desaparecidos. O país enfrenta crise humanitária, com 68% da população em extrema pobreza e inflação de 524%. A Federação Médica Venezuelana aponta desabastecimento em 90% dos hospitais e a falta de 71 toneladas de medicamentos dos EUA
Um duplo terremoto que atingiu a Venezuela na noite de quarta-feira expôs a fragilidade estrutural e a negligência do Estado venezuelano no suporte à população. A resposta governamental foi marcada pela lentidão na atualização de dados sobre vítimas e desaparecidos, além de uma infraestrutura insuficiente para lidar com a catástrofe, resultando em resgates improvisados realizados pelos próprios moradores.
Enquanto as cifras oficiais divergem das imagens de destruição, a população criou um site próprio para rastrear desaparecidos, que já contabiliza mais de 40 mil pessoas. A crise de informação foi agravada pelo bloqueio de plataformas digitais e pela censura imposta à mídia independente, dificultando a localização de parentes e o levantamento de danos materiais.
O desastre ocorre em um cenário de emergência humanitária prolongada. Atualmente, 68% dos venezuelanos vivem em extrema pobreza, e o país enfrenta a maior inflação anual do mundo, atingindo 524%. A dívida externa soma US$ 240 bilhões, o que representa 180% do Produto Interno Bruto (PIB), conforme dados do FMI.
A disfuncionalidade do Estado, consolidada por quase três décadas de gestão chavista, manifestou-se nos primeiros dias de socorro através de apagões diários, falta de água e escassez de insumos médicos. A ausência de mitigação de riscos e de estruturas institucionais para emergências é reflexo de um processo de corrupção e má-gestão.
O sistema de saúde, responsável pelo atendimento às vítimas, opera em estado crítico. Em abril, a Federação Médica Venezuelana denunciou que 90% dos 301 hospitais do país sofrem com desabastecimento e abandono. Recentemente, a entidade questionou o governo sobre o paradeiro de 71 toneladas de medicamentos enviados pelos Estados Unidos este ano que ainda não chegaram às unidades hospitalares.