Uso de insulina para ganho de massa muscular em academias pode causar hipoglicemia severa
O uso de insulina por pessoas saudáveis para ganho de massa muscular, prática comum em academias, pode causar hipoglicemia severa, coma e morte. Um estudo indica que 38% de fisiculturistas analisados utilizam o hormônio, frequentemente combinado a esteroides anabolizantes. A morte do atleta Gabriel Ganley, de 22 anos, trouxe visibilidade ao tema
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O uso de insulina por pessoas saudáveis para a hipertrofia muscular tem se tornado uma prática comum em academias, frequentemente associada ao uso de esteroides anabolizantes. Embora o hormônio seja essencial para tratar a diabetes tipo 1 — revertendo a perda de peso e recuperando a massa muscular —, sua aplicação sem indicação médica visa bloquear as rotas de degradação de proteínas e estimular a síntese muscular.
A relevância do tema ganhou destaque após a morte do fisiculturista Gabriel Ganley, de 22 anos. No apartamento do jovem, a perícia encontrou medicamentos que podem ser anabolizantes. Embora a causa do óbito dependa de exames do Instituto Médico Legal (IML), Ganley havia relatado em redes sociais o uso de insulina e um episódio anterior de hipoglicemia ocorrido durante um período de dieta restritiva.
De acordo com Clayton Macedo, diretor da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), a insulina é lipogênica, ou seja, deposita gordura. Por isso, atletas costumam utilizá-la na fase de "bulking", focada no ganho de massa. A técnica envolve a aplicação subcutânea de insulina de ação rápida combinada ao consumo de açúcar antes ou depois dos treinos para tentar evitar quedas bruscas de glicose, um equilíbrio instável baseado em orientações sem fundamento científico.
O risco imediato dessa prática é a hipoglicemia severa. Quando a glicose no sangue cai para a faixa de 50 mg/dL, o corpo libera adrenalina, causando tremores, sudorese e taquicardia. Caso não haja ingestão rápida de carboidratos, ocorre a neuroglicopenia, que é a falta de açúcar no cérebro. Esse quadro pode evoluir para confusão mental, torpor, convulsões, coma e morte, especialmente em momentos de alta intensidade de treino e baixa ingestão alimentar.
A fiscalização desse uso é complexa porque a insulina recombinante é praticamente idêntica à produzida pelo organismo humano e permanece no sangue por apenas 5 a 10 minutos, tornando-a invisível aos exames antidoping tradicionais. Um estudo de 2024, publicado na revista *Sports Medicine - Open* com 92 fisiculturistas e 45 controles na Itália e Eslovênia, revelou que 43% dos atletas usam hormônios regularmente. Entre eles, 38% utilizam insulina e 30% recorrem ao hormônio do crescimento. Para tentar detectar o uso, pesquisadores observaram marcadores indiretos, como a queda do colesterol HDL e alterações nas enzimas hepáticas ALT e AST.
A insulina raramente é usada sozinha, compondo coquetéis com diuréticos, estimulantes e esteroides. Esta combinação agrava riscos cardiovasculares: os anabolizantes elevam a pressão arterial, aumentam o colesterol LDL e tornam o sangue mais espesso, predispondo a tromboses e embolias. Além disso, o coração pode sofrer hipertrofia, o que, somado à falta de exercícios aeróbicos e ao uso de estimulantes, cria um cenário propício para arritmias fatais. Macedo observa um aumento de casos de arritmias e mortes súbitas em treinos e competições.
A utilização de esteroides anabolizantes para fins estéticos ou de performance é proibida pela Anvisa e pelo Conselho Federal de Medicina (CFM). No caso da insulina, não existe indicação para quem não possui diabetes. O médico alerta que as doses utilizadas são excessivas e que há o uso de produtos veterinários, como a trembolona, por serem mais potentes e acessíveis. A disseminação de padrões corporais fisiologicamente inatingíveis nas redes sociais tem impulsionado a prática entre jovens, muitas vezes ignorando os riscos graves à saúde.