Biquíni foi criado na França em 1946 e se tornou símbolo de liberdade feminina global
Criado em 1946 por Louis Réard na França, o biquíni enfrentou proibições religiosas e governamentais antes de se popularizar via cinema e celebridades. No Brasil, a peça foi adotada entre as décadas de 1950 e 1960, resultando em modelagens próprias que se tornaram referência global
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A trajetória do biquíni, desde a sua concepção na França até a consolidação como símbolo cultural no Brasil, reflete a evolução dos costumes e a luta pela autonomia do corpo feminino ao longo de oito décadas. Criado em julho de 1946 por Louis Réard, um engenheiro mecânico que migrou do setor automobilístico para a lingerie, o traje foi apresentado como o "menor maiô do mundo". A inovação central de Réard foi a redução drástica do tecido, expondo o umbigo feminino pela primeira vez, rompendo com a modéstia dos maiôs da época.
O nome da peça foi inspirado nos testes nucleares realizados pelos Estados Unidos no Atol de Bikini, nas Ilhas Marshall, sugerindo que a novidade teria um impacto similarly "bombástico". A primeira modelo a vestir a peça publicamente foi a dançarina Micheline Bernardini, na piscina Molitor, em Paris, já que modelos profissionais recusaram o convite por considerarem a roupa seminua.
Resistência moral e a cultura pop
A introdução do biquíni foi marcada por forte resistência. Setores religiosos e autoridades europeias proibiram a peça em praias públicas, associando-a à transgressão. Em 1951, o Papa Pio 12 classificou o traje como "pecaminoso" após a Miss Mundo, Kerstin Håkansson, ser coroada usando-o. Na Itália, a polícia chegou a multar mulheres que utilizavam a peça até o final dos anos 1950.
A aceitação global ocorreu gradualmente, impulsionada pelo cinema e por celebridades. Brigitte Bardot, na Riviera Francesa e no filme E Deus Criou a Mulher (1956), e Ursula Andress, em 007 Contra o Satânico Dr. No (1962), foram figuras centrais nessa transição. Com a revolução sexual dos anos 1960, o biquíni deixou de ser um escândalo para se tornar um emblema de liberdade.
A influência e a reinvenção brasileira
No Brasil, o biquíni encontrou um ambiente propício devido ao clima tropical e ao estilo de vida praiano, especialmente no Rio de Janeiro. Embora a peça moderna seja francesa, registros indicam que a estilista alemã Erna Miriam Etz Kaufmann já utilizava trajes de duas peças no Arpoador nos anos 1930, antes mesmo da criação de Réard. Kaufmann teria adotado o modelo por recomendação médica para exposição solar do umbigo durante a gravidez, vindo a usar o modelo de Réard no Rio em 1948.
A popularização definitiva ocorreu entre as décadas de 1950 e 1960, com a visibilidade de figuras como Marta Rocha — que usou a peça no Miss Brasil de 1954 —, Leila Diniz, Helô Pinheiro e as vedetes Carmem Verônica e Angelita Martinez nas areias de Copacabana.
Apesar da adesão popular, o Estado tentou intervir no comportamento social. Em 1961, o presidente Jânio Quadros proibiu o biquíni em espaços públicos e concursos de beleza, evidenciando o conflito entre a modernidade feminina e o conservadorismo governamental.
Evolução estética e impacto social
O Brasil não apenas adotou o biquíni, mas reinventou a peça, influenciando a moda global com cortes menores e modelagens específicas. A evolução do traje pode ser dividida em fases marcantes:
- Anos 1950: Estética pin-up, com modelagens maiores que valorizavam a silhueta.
- Anos 1960: Surgimento de modelos ousados, como o monoquíni (sem a parte superior) e o fio-dental.
- Anos 1970: Foco no bronzeado e redução das laterais, com o Rio de Janeiro como centro dessa tendência.
- Anos 1980: Popularização do modelo asa-delta, com laterais altas para alongar a silhueta.
- Fim do século XX: Estética minimalista e foco no corpo como projeto pessoal.
- Anos 2000: Consolidação do "biquíni brasileiro" como referência global de exportação.
- Anos 2010 em diante: Foco na diversidade de corpos, inclusão, representatividade e conforto.
Atualmente, o biquíni permanece no centro de um debate entre a autonomia da mulher em ocupar espaços públicos e a sexualização do corpo feminino, que muitas vezes transformou a imagem da brasileira em um estereótipo sensualizado. Contudo, a narrativa contemporânea caminha para a valorização do corpo real, desvinculando a peça de padrões rígidos de beleza.