Carmen Portinho foi declarada patrona do urbanismo no Brasil em reconhecimento ao seu legado profissional
Carmen Velasco Portinho, patrona do urbanismo no Brasil, atuou no movimento pelo sufrágio feminino e foi a primeira brasileira com título de urbanista. Formou-se em engenharia em 1925 e fundou instituições para o progresso e a representatividade profissional das mulheres. Dirigiu a Escola Superior de Desenho Industrial e projetou habitações populares com foco na arquitetura moderna
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Carmen Velasco Portinho (1903-2001) consolidou-se como uma figura central na conquista da cidadania política e profissional das mulheres no Brasil. Atuando na linha de frente do movimento feminista, ela integrou a geração que lutou pelo sufrágio feminino, direito conquistado em 1932. Para propagar a pauta do voto, Portinho utilizou métodos inovadores para a época, como o sobrevoo do Rio de Janeiro para a distribuição de panfletos.
Pioneirismo técnico e acadêmico
A trajetória de Portinho foi marcada pela ruptura de barreiras em áreas historicamente dominadas por homens. Em 1925, formou-se em engenharia pela Universidade do Brasil (atual UFRJ), tornando-se a terceira mulher brasileira a obter esse título. Sua competência técnica a levou a ingressar, no ano seguinte, na Diretoria de Obras e Viação da prefeitura do Rio e a lecionar no Colégio Dom Pedro 2º, fato que gerou escândalo social por se tratar de um internato masculino.
Além da engenharia, Portinho foi a primeira brasileira a obter o título de urbanista, após pós-graduação na Universidade do Distrito Federal em 1936. Como parte de sua formação, elaborou um anteprojeto para a futura capital, Brasília, baseado em conceitos de urbanismo moderno, prevendo uma metrópole para 2 milhões de habitantes com formato de transatlântico.
Ativismo e representatividade
O engajamento político de Portinho manifestou-se na fundação de instituições voltadas ao progresso feminino:
- Federação Brasileira pelo Progresso Feminino (1922): Criada em parceria com Bertha Lutz.
- União Universitária Feminina (1930): Focada na inserção de mulheres em profissões liberais.
- Associação Brasileira de Engenheiras e Arquitetas (1937): Estabelecida para garantir representatividade em setores técnicos.
Para a urbanista, a cidadania plena extrapolava o ato de votar, abrangendo a igualdade de direitos, o acesso ao ensino superior e a valorização do trabalho feminino fora do ambiente doméstico.
Impacto no urbanismo e habitação social
A visão de Portinho sobre as cidades foi profundamente influenciada por um estágio na Europa, em 1945, via bolsa do Conselho Britânico, onde acompanhou a reconstrução de cidades após a Segunda Guerra Mundial. Ao retornar ao Brasil, aplicou esses conceitos para transformar a habitação popular, defendendo que trabalhadores tivessem acesso a arquitetura moderna e de alta qualidade, integrando serviços como postos de saúde e escolas no mesmo espaço.
Como primeira diretora do Departamento de Habitação Popular da Prefeitura do Distrito Federal, idealizou e colaborou no projeto do Conjunto Habitacional Prefeito Mendes de Morais, o Pedregulho. Sua abordagem introduziu a economia do cuidado no planejamento urbano, projetando espaços que considerassem a rotina de quem concilia trabalho e responsabilidades domésticas.
Legado institucional e reconhecimento
No campo da gestão e educação, Portinho dirigiu a Escola Superior de Desenho Industrial, a primeira do gênero na América Latina, por duas décadas. Também teve participação na construção do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro.
Mesmo em idade avançada, manteve a militância ativa, participando da entrega da Carta das Mulheres aos Constituintes durante a elaboração da Constituição de 1988. Em reconhecimento à sua contribuição para a estruturação do planejamento urbano e a emancipação feminina, Carmen Portinho foi declarada patrona do urbanismo no Brasil em 2022.