Brasil

Cubanos superam venezuelanos como a nacionalidade com maior número de pedidos de refúgio no Brasil

22 de Junho de 2026 às 15:03

Cubanos superaram venezuelanos em pedidos de refúgio no Brasil, com 42 mil solicitações em 2025. Dados do OBMigra e da Polícia Federal indicam a prevalência de rotas irregulares via Guiana. O fluxo é motivado por crises econômicas, energéticas e climáticas em Cuba

O Brasil registrou um aumento expressivo no fluxo de imigrantes cubanos, que superaram os venezuelanos como a nacionalidade com maior número de pedidos de refúgio no país. Em 2025, foram contabilizados cerca de 42 mil pedidos de refúgio de cidadãos de Cuba, volume 20 mil superior ao de solicitantes venezuelanos no mesmo período.

Dados do Observatório das Migrações Internacionais (OBMigra), do Ministério da Justiça e da Universidade de Brasília (UnB), indicam que, até abril de 2026, 13 mil cubanos solicitaram refúgio. Esse número contrasta com os registros da Polícia Federal, que contabilizou a entrada regular de 6 mil cubanos por postos de controle oficiais no mesmo ano. A disparidade sugere a consolidação de rotas irregulares de migração, embora o Ministério da Justiça ressalte que pedidos de refúgio podem ser formalizados por pessoas que já residiam no Brasil em anos anteriores.

A mudança no perfil migratório coincide com o endurecimento das políticas de fronteira dos Estados Unidos a partir de 2025 e o fechamento de corredores na América Central. Anteriormente, a Nicarágua facilitava a passagem de cubanos sem a exigência de vistos; contudo, em fevereiro deste ano, o governo nicaraguense encerrou esse benefício após pressões americanas. Com a Guiana mantendo a isenção de vistos, o país tornou-se a principal porta de entrada.

O trajeto envolve voos de Havana para Georgetown, seguidos por viagens terrestres de até 20 horas até Lethem, na fronteira com o Brasil. A partir desse ponto, muitos imigrantes utilizam redes clandestinas de "coiotes" para atravessar o rio Tacutu em barcos e ingressar em território brasileiro, muitas vezes em veículos superlotados rumo a Boa Vista, em Roraima. Essas travessias irregulares, que podem custar mais de 10 mil dólares desde a saída de Cuba, expõem os migrantes a riscos de exploração, endividamento e condições precárias de saúde e alimentação.

Apesar de a legislação brasileira permitir que o pedido de refúgio seja feito a qualquer autoridade migratória na fronteira, a desinformação em Cuba leva muitos a acreditar que a via clandestina é a única opção. Recentemente, a Polícia Rodoviária Federal (PRF) observou um aumento de imigrantes solicitando refúgio legalmente no posto de Bonfim, sinalizando que a informação sobre a acolhida brasileira começa a circular na ilha.

O êxodo é impulsionado por uma crise multidimensional em Cuba, que inclui o colapso de usinas termelétricas, apagões diários e desabastecimento generalizado. A situação foi agravada pelo endurecimento do embargo econômico dos Estados Unidos e pela perda do principal fornecedor de petróleo após a captura de Nicolás Maduro. Além disso, a economia cubana sofreu com a queda drástica do turismo: o número de visitantes caiu de 4,7 milhões em 2018 para 1,8 milhão em 2025. Fatores climáticos, como furacões recorrentes, também contribuem para a saída de famílias.

Em Roraima, a assistência a esse grupo tem sido pautada por iniciativas comunitárias, já que a Operação Acolhida, focada em venezuelanos desde 2018, não foi adaptada para a nacionalidade cubana. O Ministério da Justiça afirma que implementa a Política Nacional de Migrações, Refúgio e Apatridia para integrar essas populações em áreas de saúde, educação e emprego.

Pesquisas realizadas na Universidade Federal de Roraima (UFRR) indicam que menos da metade dos cubanos acolhidos em Boa Vista pretende fixar residência no Brasil. Muitos utilizam o país como ponto de passagem para nações hispânicas, como Argentina e Uruguai, ou buscam o refúgio brasileiro como etapa para solicitar reassentamento no Canadá. Segundo a Polícia Federal, em 2025, 21 mil cubanos entraram oficialmente no Brasil, enquanto 5,4 mil saíram pela fronteira com o Uruguai, em Santana do Livramento.

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