Governo proibiu álcool em tônicos há 25 anos para evitar exposição de crianças ao etanol
O governo federal proibiu o álcool em tônicos e estimuladores de apetite há 25 anos, resultando na reformulação do Biotônico Fontoura. A medida, baseada em normas da Anvisa, visava reduzir a exposição de crianças ao etanol
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O governo federal proibiu, há 25 anos, a presença de álcool em tônicos, fortificantes e estimuladores de apetite, medida que forçou a reformulação do Biotônico Fontoura. A decisão, fundamentada em diretrizes da Anvisa, visava evitar a exposição diária de crianças ao etanol, reduzindo riscos à saúde e a propensão ao alcoolismo na vida adulta. Na composição original, o produto apresentava 9,5% de álcool — graduação similar à de um espumante e superior à de uma cerveja comum.
Criado em 1910 no interior de São Paulo pelo farmacêutico Cândido Fontoura Silveira, o fortificante surgiu para tratar a fraqueza de sua esposa, Elvira Siqueira de Castro, utilizando fosfatos, sais de ferro e vinho espanhol. O produto nasceu em um contexto de precariedade sanitária no Brasil, marcado por desnutrição e alta incidência de verminoses, como a ancilostomose (amarelão), que causava anemia profunda e palidez na população. Para complementar o tratamento, Fontoura desenvolveu também o Ankilostomina Fountoura, um vermicida que eliminava a infecção para que o Biotônico pudesse restaurar o vigor do paciente.
A consolidação da marca no mercado nacional foi impulsionada por uma parceria com o escritor Monteiro Lobato. Após experimentar o produto para combater a fadiga, Lobato batizou o preparado de "Biotônico Fontoura" e tornou-se um entusiasta da fórmula. A estratégia de divulgação evoluiu para o uso do personagem Jeca Tatuzinho, versão recuperada do Jeca Tatu, que passou a ensinar higiene e saneamento enquanto servia como garoto-propaganda do tônico. Entre 1926 e 1973, foram distribuídos milhões de folhetos do personagem, além do Almanaque Fontoura, que chegou a atingir a marca de 100 milhões de exemplares em 1982.
O sucesso do produto também se deveu a campanhas publicitárias massivas, incluindo o jingle lançado em 1978 e a contratação de figuras públicas como Pelé, Xuxa e a dupla Sandy & Júnior. Com o tempo, o Biotônico deixou de ser um medicamento geral para se reposicionar como suplemento nutricional infantil, integrando-se ao imaginário popular através de receitas caseiras que misturavam o tônico a ovos de pata e leite condensado para ganho de peso.
Atualmente, a Hypera Pharma, detentora da marca desde 2007, ressalta que a composição acompanha a evolução científica. Em 2021, o sulfato ferroso foi substituído pelo bisglicinato ferroso para melhorar a absorção do ferro, e desde 2017 o produto oferece versões com sabores de uva e morango.
Apesar da crença popular de que o álcool estimulava o apetite, a função do etanol na fórmula antiga era primordialmente técnica, atuando como solvente para componentes pouco solúveis em água e auxiliando na conservação. Especialistas apontam que a eficácia do produto como estimulante da fome carece de evidências científicas, sendo o sulfato ferroso o único componente ativo com efeito comprovado para casos de anemia ferropriva. A recomendação atual é que o uso do suplemento seja orientado por profissionais de saúde e baseado em exames laboratoriais, evitando-se a automedicação ou misturas caseiras.