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Mãe de seis filhos adotados relata a importância de superar idealizações na adoção tardia

04 de Agosto de 2026 às 06:05

Fernanda Fabris adotou seis filhos, incluindo crianças e adolescentes, enfrentando desafios como traumas de acolhimento institucional e defasagem escolar. A experiência ressalta a importância de suporte psicopedagógico, rede de apoio e a desconstrução de idealizações sobre a adoção tardia. O caso enfatiza que a flexibilização de perfis no Sistema Nacional de Adoção amplia as chances de crianças vulneráveis encontrarem lares

Mãe de seis filhos adotados relata a importância de superar idealizações na adoção tardia
Arquivo Pessoal

A trajetória de Fernanda Fabris, mãe de seis filhos adotados, evidencia que a adoção tardia e de grupos de irmãos demanda a superação de idealizações românticas em favor de um processo realista de construção de vínculos. Após 11 anos de tentativas frustradas de engravidar e diagnósticos que atribuíam a infertilidade à ansiedade, Fernanda optou por abrir mão da gestação biológica para focar no desejo de acolher crianças e adolescentes, faixa etária com menor procura no sistema.

A complexidade do vínculo e o trauma

A chegada dos primeiros quatro filhos — com idades entre 3 e 11 anos — revelou que o afeto, embora essencial, não é suficiente para apagar instantaneamente as marcas do acolhimento institucional. A psicóloga Renata Travain, especialista no tema, explica que crianças que passaram por rupturas sucessivas e negligência costumam apresentar um trauma complexo de relacionamento.

Esse quadro se manifesta não apenas em comportamentos disruptivos, mas em impactos biológicos e cerebrais. No caso de Fernanda, isso se traduziu em crises de estresse físico no filho mais novo e na rejeição explícita da filha de 9 anos, que testava a resistência do novo vínculo através de provocações. Segundo Travain, a estratégia de sobrevivência da criança é frequentemente interpretada pelos pais como afronta, quando, na verdade, é um reflexo do medo e da instabilidade vivida anteriormente.

Desafios da parentalidade adotiva

A experiência de Fernanda destaca a existência de um "puerpério da adoção", período de reorganização psíquica e logística para quem assume a parentalidade de forma abrupta. A construção da relação ocorre em etapas: inicia-se com a amizade, passa pelas afinidades e, somente então, consolida-se como a relação entre mãe e filho.

A rede de apoio e a previsibilidade da rotina são apontadas como pilares fundamentais. A segurança da criança é construída através de elementos básicos, como sono regular, alimentação e contato visual, que reduzem a ansiedade de quem habita um ambiente desconhecido.

Adoção de adolescentes e a busca ativa

A expansão da família ocorreu posteriormente com a chegada de Nati e Emanuel. Nati, adotada aos 17 anos e meio por meio de um processo de vínculo afetivo prévio, demonstrou que a "perfeição" inicial pode ser uma máscara para traumas profundos que só emergem após a segurança da sentença judicial.

Já Emanuel, vindo de Pernambuco aos 17 anos, trouxe o desafio da defasagem escolar. Sem estar alfabetizado devido a promoções automáticas no abrigo, ele precisou de acompanhamento psicopedagógico especializado para aprender a ler e escrever em oito meses. A experiência reforçou a visão de que filhos adotivos não precisam de "conserto", mas de suporte familiar para desenvolverem suas próprias aptidões, como ocorreu com Emanuel, que se tornou jardineiro.

Realidade do sistema de acolhimento

Um ponto central da narrativa é a desconstrução da ideia de que a maioria das crianças é abandonada. Na realidade, a maioria é retirada de suas famílias de origem devido a quadros de negligência, muitas vezes ligados ao uso de substâncias químicas ou falta de recursos, embora não necessariamente por falta de amor dos pais biológicos.

Para quem deseja adotar, a recomendação é a honestidade no preenchimento do perfil no Sistema Nacional de Adoção (SNA). A redução de restrições quanto à idade, etnia ou histórico de saúde acelera o processo e amplia as chances de crianças em situação de vulnerabilidade encontrarem um lar.

Recomendações para pretendentes à adoção

Para garantir a sustentabilidade do vínculo, a especialista Renata Travain sugere:

  • Preparação terapêutica: Os pais devem tratar suas próprias dores antes de acolher a criança.
  • Estudo sobre trauma: Compreender que a recusa e a birra são respostas ao luto e à perda.
  • Validação do passado: Não tentar apagar a história anterior da criança com presentes ou promessas de felicidade, mas integrar as perdas ao novo presente.
  • Construção coletiva: Envolver avós e tios para que a família estendida também desmonte tabus sobre a parentalidade adotiva.

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