Achados na Indonésia revelam que o consumo de drogas psicoativas começou há 25 mil anos
Análises de esqueletos na Indonésia indicam que o consumo de noz de betel, fonte da substância psicoativa arecolina, ocorreu há cerca de 25 mil anos. O registro, publicado na Science Advances, foi identificado por desgastes dentários profundos causados pelo hábito de girar a semente na boca
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Evidências encontradas em esqueletos na ilha de Sulawesi, na Indonésia, revelam que o consumo de drogas psicoativas por seres humanos começou há cerca de 25 mil anos. O achado, detalhado na revista Science Advances, recua a linha do tempo desse hábito em quase 20 mil anos, superando o registro anterior de 3,5 mil anos obtido em remanescentes humanos na Tailândia.
A substância e o método de consumo
A substância identificada é a arecolina, componente da noz de betel (fruto de palmeiras do gênero Areca). Atualmente, a semente é a quarta droga mais utilizada globalmente, superada apenas por nicotina, cafeína e álcool, sendo consumida por aproximadamente 10% da população mundial, com maior incidência nas regiões do Pacífico e Ásia.
A análise de dois esqueletos — um datado entre 25 mil e 16 mil anos e outro, pertencente à cultura toaleana, entre 7,6 mil e 6,3 mil anos — revelou um padrão de desgaste dentário inédito. Os dentes apresentavam sulcos arredondados e contínuos, diferindo do desgaste horizontal típico da mastigação. Em diversos casos, a erosão foi profunda a ponto de expor a polpa dentária, onde se localizam vasos sanguíneos e nervos.
A investigação concluiu que as lesões eram resultado de um hábito repetitivo de girar na boca um objeto esférico de 10 a 20 milímetros. Testes laboratoriais confirmaram que a noz de betel libera a substância psicoativa mesmo sem ser mastigada. Além disso, a ausência de guvacina, arecaidina e de manchas avermelhadas nos dentes indica que a semente era consumida em sua forma bruta, sem a mistura com cal hidratada, prática que se tornou comum apenas séculos depois.
Efeitos no organismo e dependência
A arecolina atua nos receptores muscarínicos do sistema nervoso, os mesmos estimulados pela acetilcolina, que regula a memória, a atenção e a salivação. O uso da semente promove euforia leve, estado de alerta e maior disposição para atividades físicas, efeitos análogos aos da cafeína.
Os pesquisadores apontam que a manutenção do hábito, apesar dos danos bucais, pode ter sido motivada por dois fatores:
- Propriedade analgésica: a substância auxilia no alívio de dores dentárias.
- Digestão: o aumento da salivação facilita a quebra de amidos presentes em palmeiras selvagens.
A severidade do desgaste dentário sugere a existência de um ciclo de dependência, no qual a semente era utilizada para mitigar dores que eram, progressivamente, agravadas pelo próprio ato de chupar a semente.