Agência de auditoria alerta que programa Artemis da NASA não possui sistema de resgate lunar
A Agência de Auditoria da NASA alertou que a falta de um sistema de resgate nas missões Artemis coloca em risco astronautas no polo sul lunar. O programa, com pouso previsto para 2028, não possui veículos de emergência ou abrigos, e os contratos com a SpaceX e Blue Origin não exigem suporte vital prolongado
A Agência de Auditoria da NASA, órgão fiscalizador vinculado ao Congresso dos Estados Unidos, alertou que a ausência de um sistema de resgate para as missões Artemis coloca em risco a vida dos astronautas. A falha crítica na arquitetura do programa foi identificada durante a revisão do projeto de alunização previsto para 2028. Atualmente, caso um módulo sofra avarias ou fique inutilizado na superfície lunar, não existem veículos de resgate, abrigos de emergência ou meios de exploração disponíveis para salvar a tripulação.
Riscos geográficos e técnicos do Polo Sul Lunar
Diferente do programa Apollo, que operou em planícies, as novas missões miram o polo sul lunar. A região é caracterizada por terrenos acidentados, rochas e crateras profundas, como o Cráter Shackleton, que possui mais que o dobro da profundidade do Grand Canyon. As encostas da região, com inclinações de até 20 graus, dificultam as manobras de pouso e navegação.
O risco é amplificado pelas dimensões dos veículos contratados para o Sistema de Pouso Humano (HLS):
- Starship (SpaceX): Com 52 metros de altura (equivalente a um prédio de 14 andares), o foguete apresenta risco de movimentação após o pouso, o que pode causar acidentes.
- Blue Moon (Blue Origin): Com 16 metros, o módulo pode exceder a tolerância de inclinação, comprometendo sistemas vitais de sobrevivência da tripulação, mesmo sem tombar completamente.
Para efeito de comparação, o módulo lunar do programa Apollo media apenas 7 metros e operava em terrenos favoráveis.
Lacunas contratuais e financeiras
Os contratos firmados com a SpaceX (superior a 4 bilhões de dólares) e a Blue Origin (mais de 3 bilhões de dólares) exigem apenas a capacidade de pouso e decolagem. Não há obrigatoriedade de garantir o suporte vital dos astronautas caso eles fiquem retidos na Lua por mais tempo que o planejado. A NASA não possui capacidade formal de resgate espacial desde a desativação dos ônibus espaciais em 2011.
A decisão de não implementar um sistema de segurança parece ser financeira. O programa Artemis deve consumir 93 bilhões de dólares entre 2012 e 2025. A criação de um segundo módulo para servir de abrigo e resgate elevaria esse custo entre 3 e 5 bilhões de dólares. Até o momento, a agência planeja lançar a missão com a empresa que concluir o desenvolvimento primeiro, sem aguardar a disponibilidade de um voo de resgate.
Alternativas e pressões geopolíticas
O analista de política espacial Brian Hurley sugere que a NASA poderia adaptar a missão de teste sem tripulação da SpaceX, deixando a Starship na Lua como um abrigo permanente equipado com suprimentos. Embora a NASA tenha aceitado a recomendação dos auditores para revisar os planos de sobrevivência, ainda não há confirmação de verbas para um módulo de resgate até 2028.
A urgência do cronograma é impulsionada por uma ordem executiva da Casa Branca para garantir a presença americana na Lua até 2028, visando a liderança global. Paralelamente, a China planeja levar taikonautas à superfície lunar até 2029, testando o foguete Long March 10 e o módulo Lanyue.
Mudanças estruturais e cooperação internacional
Para liberar recursos, Jared Isaacman, aprovado pelo Senado para liderar a NASA até o final de 2025, cancelou a estação espacial Gateway (posto avançado em órbita lunar), economizando mais de 5 bilhões de dólares. Esse montante será destinado a habitats de superfície para a década de 2030, que poderiam servir de abrigo, mas não estarão prontos para as missões iniciais.
Sobre a possibilidade de um resgate mútuo entre Estados Unidos e China, Hurley observa que, tecnicamente, o módulo chinês poderia realizar manobras autônomas de acoplagem. No entanto, tal operação dependeria de acordos complexos de segurança nacional, política externa e controle de exportações entre os dois governos, transcendendo a vontade de empresários como Elon Musk ou Jeff Bezos.