Águas quentes na base da Geleira Denman podem elevar o nível do mar em 1,5 metro
Estudo liderado pelo oceanógrafo Steve Rintoul, publicado na revista Science Advances, identificou a presença de águas quentes na base da Geleira Denman, na Antártida Oriental. A análise, realizada via flutuador Argo, indica que o colapso da estrutura pode elevar o nível do mar global em até 1,5 metro

A Geleira Denman, situada na Antártida Oriental, enfrenta a ameaça de águas quentes que atingem sua base, fator que pode desestabilizar sua estrutura e elevar o nível do mar global em até 1,5 metro em caso de colapso. A descoberta foi detalhada em estudo publicado na revista *Science Advances* em dezembro de 2025, sob a liderança do oceanógrafo Steve Rintoul, da agência australiana de ciência CSIRO.
As informações foram obtidas por um flutuador Argo, equipamento de baixo custo e sem sistemas de navegação ou propulsão, que deriva conforme as correntes marítimas para medir a salinidade e a temperatura da água. O instrumento percorreu cerca de 300 quilômetros ao longo de dois anos e meio, permanecendo entre oito e nove meses sob as plataformas de gelo Denman e Shackleton. Por se tratar de uma região de difícil acesso, o dispositivo gerou o primeiro transecto oceânico do Leste Antártico, com perfis completos do oceano coletados a cada cinco dias, desde o fundo do mar até a base do gelo.
Durante o período em que esteve sob a camada gelada, o flutuador perdeu a comunicação via satélite e o sinal de GPS. A localização dos dados foi recuperada posteriormente por meio de um processo de análise técnica: a equipe comparou a profundidade da base da plataforma — registrada cada vez que o aparelho colidia com o gelo — com medições de satélite sobre a espessura da camada. Esse método permitiu reconstruir a trajetória do equipamento e georreferenciar as quase 200 medições inéditas.
Os dados revelaram que a Geleira Denman é um dos pontos mais críticos da região. A chegada de água quente à sua base pode acelerar o derretimento inferior, comprometendo a fixação da geleira no leito rochoso e disparando um recuo irreversível do gelo continental para o oceano. Em contrapartida, as medições indicaram que a plataforma Shackleton, localizada mais ao norte, não está exposta a esse aquecimento basal, mostrando-se menos vulnerável no momento.
A precisão do flutuador permitiu analisar a camada-limite de água logo abaixo do gelo, com cerca de 10 metros, que é o fator determinante para a velocidade do degelo. Esse tipo de medição direta é fundamental, pois substitui estimativas e reduz as incertezas dos modelos climáticos sobre a contribuição da Antártida para a subida dos oceanos, impactando cidades litorâneas, ilhas e deltas.
O risco global é expressivo, dado que as geleiras Denman e Totten armazenam gelo suficiente para elevar o nível do mar em mais de 5 metros se derretessem totalmente. Diante do resultado, os pesquisadores defendem a expansão da rede de sensores Argo na plataforma continental antártica para ampliar a compreensão sobre a vulnerabilidade do gelo frente às mudanças oceânicas.