Algoritmo inspirado no comportamento de abelhas resolve instabilidade de tráfego na internet
Um algoritmo inspirado no comportamento de abelhas resolveu a instabilidade da internet causada por picos de tráfego. A tecnologia permite que servidores ociosos absorvam a demanda de máquinas sobrecarregadas, evitando a queda de sites
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A aplicação de comportamentos biológicos em sistemas digitais permitiu a solução de um problema crítico de infraestrutura da rede mundial de computadores: a instabilidade causada por picos de tráfego. O desenvolvimento de um algoritmo inspirado na sabedoria da colmeia possibilitou que servidores ociosos assumissem a demanda de máquinas sobrecarregadas, evitando a queda de sites durante eventos de acesso massivo.
A inspiração na natureza para a estabilidade da internet
A necessidade dessa inovação tornou-se evidente após os ataques de 11 de setembro de 2001. Na ocasião, a internet, ainda em fase de expansão, colapsou devido ao volume sem precedentes de usuários buscando informações simultaneamente. O sistema de hospedagem da época dependia de estimativas fixas de processamento por servidor; quando a demanda superava a previsão, as filas de espera cresciam e o serviço travava, mesmo que houvesse outros servidores disponíveis no sistema.
A solução surgiu da parceria entre Sunil Nakrani, engenheiro eletricista e doutorando na Universidade de Oxford, e Craig Tovey, especialista em engenharia de sistemas do Instituto de Tecnologia da Geórgia. Tovey identificou que a eficiência das abelhas em ambientes incertos poderia ser transposta para o ambiente digital.
As abelhas operam sem liderança centralizada para coletar néctar de flores distribuídas de forma irregular e em tempos variados. Para otimizar essa coleta, elas utilizam um modelo de organização coletiva. Esse comportamento foi estudado detalhadamente por Tovey, John J. Bartholdi III, John Hagood Vande Vate e o biólogo Tom Seeley, da Universidade de Cornell. A pesquisa envolveu a marcação individual de 4 mil abelhas com cores e números para monitorar sua movimentação em fontes artificiais de néctar.
O resultado desse estudo foi a criação de um algoritmo que organiza o tráfego de dados de forma dinâmica, eliminando a lentidão de carregamento em picos de acesso.
O valor da pesquisa básica e a ciência da curiosidade
A trajetória desse algoritmo reflete a importância da pesquisa básica — estudos movidos pela curiosidade e sem aplicação prática imediata. Esse conceito é central para o Prêmio Ganso de Ouro, criado pelo congressista Jim Cooper para valorizar descobertas que, embora inicialmente parecessem obscuras, geraram impactos profundos na sociedade. O prêmio surgiu como contraponto ao antigo "Prêmio Velocino de Ouro", que ridicularizava gastos públicos em ciência.
Joanne Padrón Carney, da Associação Americana para o Avanço da Ciência (AAAS), destaca que a tendência atual de priorizar a "pesquisa orientada por missão" (com objetivos específicos em saúde ou defesa) pode prejudicar avanços futuros, já que a base de muitas tecnologias disruptivas vem de estudos puramente exploratórios.
Exemplos históricos corroboram essa tese:
- Inteligência Artificial: As redes neurais, base da IA moderna, originaram-se de estudos da neurociência na década de 1970 para compreender a cognição humana. Geoffrey Hinton, pioneiro nessa área e vencedor do Nobel em 2024, é um dos homenageados pelo Ganso de Ouro.
- Testes de PCR: A técnica de multiplicação de DNA, essencial para diagnósticos de covid-19 e ciência forense, foi possível graças à descoberta da bactéria Thermus aquaticus. Thomas Brock e Hudson Freeze encontraram o organismo em lamas de fontes termais no Parque Nacional de Yellowstone nos anos 1960, sem qualquer intenção industrial inicial.
- Tratamento de Câncer: A cisplatina, quimioterápico que elevou a taxa de sobrevivência do câncer de testículo de 10% para 90%, nasceu de um erro experimental. Barnett Rosenberg, Loretta Van Camp e Thomas Krigas estudavam campos elétricos em bactérias E. coli quando notaram que resíduos de platina nos eletrodos impediam a divisão celular.
Esses casos demonstram que a exploração do desconhecido, muitas vezes financiada por bolsas modestas — como a de US$ 80 mil no caso de Yellowstone —, produz retornos incalculáveis para a medicina e a tecnologia global.