Análise de cerâmicas revela desigualdade alimentar entre grupos sociais em Santa Catarina há cem anos
Análise de gorduras em 182 fragmentos de cerâmica da Baía da Babitonga, em Santa Catarina, reconstituiu dietas entre o fim do século 19 e início do 20. O estudo identificou que colonos alemães consumiam carne e laticínios, enquanto indígenas, afrodescendentes e luso-brasileiros baseavam a alimentação em peixes, frutos do mar e vegetais
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A análise de moléculas de gordura preservadas em fragmentos de cerâmica permitiu a reconstituição do cardápio de diferentes grupos sociais no Brasil entre o final do século 19 e o início do século 20. O estudo, realizado com 182 fragmentos de panelas provenientes de quatro sítios arqueológicos na Baía da Babitonga, em Santa Catarina — área que compreende atualmente Joinville e São Francisco do Sul —, revelou a profunda desigualdade alimentar da época.
Metodologia de análise molecular
A investigação baseou-se no fato de que, durante o cozimento, parte da gordura dos alimentos penetra nos poros da cerâmica e permanece retida mesmo após o desuso do objeto. Para recuperar esses dados, os pesquisadores trituraram pequenas quantidades de pó de cada fragmento e extraíram as moléculas de gordura.
A identificação da origem dos resíduos foi feita por meio de técnicas de química analítica, especificamente a cromatografia gasosa e a análise de isótopos de carbono. Essas ferramentas permitiram distinguir a "assinatura molecular" de cada alimento, separando gorduras de origem vegetal, de animais terrestres ou de recursos aquáticos. A diferenciação ocorre pela proporção entre dois ácidos graxos, o palmítico e o esteárico.
Além dos lipídios, a equipe buscou extrair proteínas das amostras. Apesar da maior degradação desse material ao longo do tempo, foi possível identificar a presença de gema de ovo e de peixes da família dos corvinídeos.
Divisão social e acesso aos recursos
Os resultados demonstram que a dieta da população era determinada pela posse de terra e pela inserção na economia formal. Enquanto o Brasil do período possuía vasta riqueza natural e terras agricultáveis, o acesso a esses recursos era desigual, moldando a estrutura da insegurança alimentar que persiste no país.
As panelas produzidas manualmente, sem o uso de torno e com decorações ligadas a tradições europeias, africanas e indígenas, evidenciaram a disparidade nutricional:
- Colonos alemães: A alimentação era baseada em carne, gordura animal e laticínios, com baixa incidência de plantas cultivadas.
- Indígenas, afrodescendentes e luso-brasileiros: A dieta concentrava-se em peixes e frutos do mar, além de milho, mandioca, frutas e, em menor escala, feijão. O consumo de proteína terrestre restringia-se a galinha e, ocasionalmente, gado.
A dependência de recursos da costa, como a pesca e a coleta, por parte de comunidades indígenas e africanas, reflete a falta de acesso à propriedade da terra e ao capital, tornando-os dependentes de recursos livres, enquanto as famílias com terras detinham o controle da pecuária e da lavoura.
A combinação de análises de proteínas e lipídios permitiu a identificação de biomarcadores de arroz, feijão, verduras e frutas, proporcionando um retrato detalhado do cotidiano alimentar de cada grupo social há mais de cem anos.