Ciência

Análise de cerâmicas revela desigualdade alimentar entre grupos sociais em Santa Catarina há cem anos

24 de Julho de 2026 às 09:10

Análise de gorduras em 182 fragmentos de cerâmica da Baía da Babitonga, em Santa Catarina, reconstituiu dietas entre o fim do século 19 e início do 20. O estudo identificou que colonos alemães consumiam carne e laticínios, enquanto indígenas, afrodescendentes e luso-brasileiros baseavam a alimentação em peixes, frutos do mar e vegetais

Análise de cerâmicas revela desigualdade alimentar entre grupos sociais em Santa Catarina há cem anos
ICTA-UAB

A análise de moléculas de gordura preservadas em fragmentos de cerâmica permitiu a reconstituição do cardápio de diferentes grupos sociais no Brasil entre o final do século 19 e o início do século 20. O estudo, realizado com 182 fragmentos de panelas provenientes de quatro sítios arqueológicos na Baía da Babitonga, em Santa Catarina — área que compreende atualmente Joinville e São Francisco do Sul —, revelou a profunda desigualdade alimentar da época.

Metodologia de análise molecular

A investigação baseou-se no fato de que, durante o cozimento, parte da gordura dos alimentos penetra nos poros da cerâmica e permanece retida mesmo após o desuso do objeto. Para recuperar esses dados, os pesquisadores trituraram pequenas quantidades de pó de cada fragmento e extraíram as moléculas de gordura.

A identificação da origem dos resíduos foi feita por meio de técnicas de química analítica, especificamente a cromatografia gasosa e a análise de isótopos de carbono. Essas ferramentas permitiram distinguir a "assinatura molecular" de cada alimento, separando gorduras de origem vegetal, de animais terrestres ou de recursos aquáticos. A diferenciação ocorre pela proporção entre dois ácidos graxos, o palmítico e o esteárico.

Além dos lipídios, a equipe buscou extrair proteínas das amostras. Apesar da maior degradação desse material ao longo do tempo, foi possível identificar a presença de gema de ovo e de peixes da família dos corvinídeos.

Divisão social e acesso aos recursos

Os resultados demonstram que a dieta da população era determinada pela posse de terra e pela inserção na economia formal. Enquanto o Brasil do período possuía vasta riqueza natural e terras agricultáveis, o acesso a esses recursos era desigual, moldando a estrutura da insegurança alimentar que persiste no país.

As panelas produzidas manualmente, sem o uso de torno e com decorações ligadas a tradições europeias, africanas e indígenas, evidenciaram a disparidade nutricional:

  • Colonos alemães: A alimentação era baseada em carne, gordura animal e laticínios, com baixa incidência de plantas cultivadas.
  • Indígenas, afrodescendentes e luso-brasileiros: A dieta concentrava-se em peixes e frutos do mar, além de milho, mandioca, frutas e, em menor escala, feijão. O consumo de proteína terrestre restringia-se a galinha e, ocasionalmente, gado.

A dependência de recursos da costa, como a pesca e a coleta, por parte de comunidades indígenas e africanas, reflete a falta de acesso à propriedade da terra e ao capital, tornando-os dependentes de recursos livres, enquanto as famílias com terras detinham o controle da pecuária e da lavoura.

A combinação de análises de proteínas e lipídios permitiu a identificação de biomarcadores de arroz, feijão, verduras e frutas, proporcionando um retrato detalhado do cotidiano alimentar de cada grupo social há mais de cem anos.

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