Análise de cristais de circonio revela que a Antártida teve montanhas comparáveis ao Himalaia
Geólogos da Universidade Australiana identificaram, via análise de 1.712 grãos de circonio, antigas cadeias montanhosas na Antártida formadas entre 650 e 450 milhões de anos atrás. O estudo, publicado na Earth and Planetary Science Letters, indica que a colisão entre blocos continentais gerou estruturas com dimensões comparáveis ao Himalaia
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A análise de 1.712 grãos de circonio provenientes da Antártida revelou a existência de antigas cadeias montanhosas que podem ter tido dimensões comparáveis às do atual Himalaia. O estudo, conduzido por geólogos da Universidade Australiana e publicado na revista Earth and Planetary Science Letters, utilizou esses cristais para reconstruir a história geológica do continente entre 650 e 450 milhões de anos atrás, período de formação do supercontinente Gondwana.
Para acessar essas informações sem a necessidade de perfurações profundas no gelo, que cobre mais de 99,5% da região, os pesquisadores examinaram sedimentos oceânicos onde os grãos de circonio foram depositados. Esses cristais preservaram a composição química e a cronologia das rochas originais por centenas de milhões de anos. Ao integrar esses dados a amostras antárticas pré-existentes e a uma base global, os autores identificaram que a colisão entre os blocos continentais da Antártida, Índia, Austrália e Kalahari gerou o maior evento de formação de montanhas relacionado a um supercontinente no registro analisado.
Impacto geológico e sedimentar
A evidência de rochas submetidas a pressões extremas em grandes profundidades confirma a magnitude desses sistemas montanhosos. Embora tenham sido destruídas pela erosão ao longo do tempo, as raízes geológicas dessas estruturas e parte de seus materiais ainda podem estar preservados sob a camada de gelo antártica.
Esse processo erosivo teria gerado um volume massivo de sedimentos, sugerindo a existência do maior sistema de depósitos turbídicos já identificado no registro geológico.
Influência na evolução da vida animal
A degradação dessas montanhas provocou a liberação contínua de nutrientes, como ferro e fósforo, nos oceanos. Esse aporte químico estimulou a produção primária de cianobactérias e algas, organismos responsáveis pela liberação de oxigênio via fotossíntese e base das cadeias alimentares marinhas.
Para que esse oxigênio permanecesse na atmosfera e não fosse consumido por reações com matéria orgânica, o estudo propõe que as grandes quantidades de sedimentos tenham facilitado o enterramento rápido e profundo de pirita e carbono orgânico. Esse mecanismo teria criado um ciclo favorável:
- Fornecimento de nutrientes: Mantido pela erosão das montanhas.
- Produção de oxigênio: Estimulada pela atividade de algas e cianobactérias.
- Preservação atmosférica: Garantida pelo soterramento de compostos redutores.
- Suporte biológico: Disponibilização de componentes químicos para a criação de esqueletos biominerais.
Essa dinâmica ambiental teria preparado o cenário para a expansão e diversificação de formas de vida animal complexas.
Apesar dos achados, os pesquisadores ressaltam que o estudo não comprova que as montanhas da Antártida tenham causado diretamente a explosão do Cámbrio. O modelo ainda não explica totalmente modificações químicas ocorridas há 800 milhões de anos e reconhece incertezas sobre a evolução do oxigênio atmosférico no período. Contudo, a análise dos cristais de circonio reforça a tese de que a geologia antártica desempenhou um papel fundamental na configuração das condições ambientais que permitiram a prosperidade da vida animal.