Análise de meteoritos identifica milhares de compostos orgânicos anteriores à formação da Terra
Pesquisadores identificaram milhares de compostos de carbono nos meteoritos Murchison e Aguas Zarcas utilizando espectrometria de massas e microscopia de força atômica. O estudo, publicado na The Planetary Science Journal, revelou perfis moleculares distintos entre as amostras. Os dados permitem a reconstrução da química primordial anterior à formação da Terra
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A análise de meteoritos que atingiram a Terra em diferentes épocas permitiu a reconstrução de parte da química primordial anterior à formação do nosso planeta. Um estudo publicado na revista The Planetary Science Journal identificou dezenas de milhares de compostos moleculares baseados em carbono em amostras dos meteoritos Murchison e Aguas Zarcas.
Para decifrar a complexa matéria orgânica desses corpos celestes, pesquisadores do National High Magnetic Field Laboratory (da Florida State University) e do Brookhaven National Laboratory utilizaram a combinação de microscopia em escala atômica e espectrometria de massas de alta resolução.
Metodologia de análise química
O processo envolveu a dissolução de fragmentos minúsculos dos meteoritos em solventes orgânicos, que foram posteriormente examinados por um espectrômetro de massas FT-ICR de 21 teslas do MagLab. Essa tecnologia possibilitou a detecção de milhares de fórmulas moleculares, embora a equipe tenha ressaltado que a quantidade de fórmulas não implica necessariamente a mesma quantidade de estruturas diferentes, dado que moléculas distintas podem compartilhar a mesma fórmula química.
Para solucionar essa lacuna, foi aplicada a microscopia de força atômica de alta resolução e sem contato. O pesquisador Percy Zahl, do Brookhaven National Laboratory, utilizou uma sonda ultrafina que, sem tocar a molécula, mapeia a arquitetura do material e a conexão entre seus átomos.
A operação é rigorosa: a imagem de uma única molécula pode demandar de dias a meses de trabalho. Esta é apenas a terceira vez que tal técnica de microscopia é documentada em material meteorítico, proporcionando a união entre a visão geral da composição química e a imagem direta de estruturas individuais.
Diferenças entre os meteoritos e a origem do sistema solar
Apesar de pertencerem a uma família de meteoritos ricos em carbono, o Murchison — que caiu na Austrália em 1969 e é classificado como uma condrita carbonácea — e o Aguas Zarcas — que chegou à Costa Rica em 2019 — apresentam perfis moleculares muito distintos. Apenas uma pequena parte de suas composições coincide.
Essa divergência indica que os asteroides de origem desses fragmentos estiveram expostos a ambientes químicos variados, com diferentes níveis de aquecimento, presença de água e reações químicas durante a evolução inicial do sistema solar.
O meteorito Murchison destaca-se por possuir ao menos 5,5 bilhões de anos, sendo anterior à própria Terra. Embora a pesquisa não comprove que a vida ou seus precursores tenham sido transportados por esses corpos, o estudo evidencia a existência de uma "sopa química" rica em compostos orgânicos no espaço. A transição da análise de fórmulas para a observação da forma concreta das moléculas permite reconstruir com precisão o inventário químico disponível nas etapas iniciais do sistema solar.