Ciência

Análise genética identifica linhagem distinta de elefantes nas terras altas do leste de Angola

23 de Maio de 2026 às 15:05

Análise genética de fezes identificou que elefantes de Angola pertencem a uma linhagem distinta, com maior proximidade com populações da Namíbia do que com as de Botsuana. O estudo, realizado por pesquisadores de Stanford e Chicago, utilizou sequenciamento genômico para determinar a ancestralidade dos animais

Análise genética identifica linhagem distinta de elefantes nas terras altas do leste de Angola
Descubra os segredos dos elefantes de Angola, uma linhagem única revelada por DNA retirado de fezes.

Uma análise genética realizada a partir de amostras de fezes identificou que os elefantes de Angola, conhecidos como "fantasmas", pertencem a uma linhagem distinta, localizada nas terras altas do leste do país. O estudo revelou que esses animais possuem maior proximidade genética com populações da Namíbia, situadas a centenas de quilômetros ao sul, do que com os elefantes do Delta do Okavango, em Botsuana.

A investigação teve início após mais de dez anos de monitoramento de relatos locais sobre a presença de gigantes noturnos em regiões remotas, conduzido pelo biólogo conservacionista Steve Boyes. Em 2024, a captura de imagens desses animais em Lisima Ly Mwono permitiu que Boyes buscasse a colaboração de pesquisadores de Stanford para determinar a identidade da população.

Para viabilizar a coleta, a equipe enfrentou uma expedição complexa, que incluiu o transporte de motocicletas através de rios para acessar a área estudada. O material biológico foi analisado no laboratório de Dmitri Petrov, professor da Escola de Humanidades e Ciências de Stanford, e de Katie Solari, diretora associada do Programa de Genômica da Conservação.

O processo técnico envolveu o uso de máquinas para romper células e liberar o DNA das fezes, permitindo o sequenciamento do genoma completo sem a necessidade de capturar ou observar os animais de perto. De acordo com Solari, a técnica é eficaz para espécies de difícil observação, pois o muco de amostras frescas atua como tecido. O principal desafio do método consiste em isolar o DNA do elefante de elementos externos, como parasitas, microbioma e resíduos alimentares, embora a precisão seja suficiente para determinar sexo, ancestralidade e parentesco.

A etapa de comparação genômica foi realizada por Carla Hoge, pesquisadora da Universidade de Chicago no laboratório de John Novembre. Inicialmente, a equipe enfrentou a escassez de dados genéticos de elefantes selvagens, já que as sequências disponíveis de animais em cativeiro possuíam origens ancestrais imprecisas. Para solucionar a lacuna, Jordana Meyer e Solari dedicaram meses à coleta de tecidos e sangue de outros elefantes na região filmada, criando a base necessária para a comparação.

A descoberta levantou a possibilidade de que esses animais sejam descendentes de Henry, elefante morto em Angola na década de 1950 e registrado como o maior mamífero terrestre da história, cujos restos estão no Museu Nacional de História Natural Smithsonian. No entanto, essa hipótese não foi confirmada, pois a única evidência genética disponível de Henry é o DNA mitocondrial, transmitido apenas por linhagem materna, o que não estabelece conexão direta com os elefantes fantasmas.

A identificação de indivíduos distintos por meio dessa metodologia contribui para a conservação ao permitir a estimativa do tamanho de populações ameaçadas sem causar perturbação aos animais, técnica que Petrov ressaltou e que Solari também aplicou em estudos no Paquistão. O processo de busca e análise foi documentado em produção da National Geographic.

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