Análise genética revela que Cataratas de Sangue na Antártida abrigam microrganismos de origem marinha
Análise genética publicada na Nature Geoscience identificou microrganismos de origem marinha nas Cataratas de Sangue, na Antártida. O estudo revelou que a vida microscópica sobrevive em uma salmoura rica em ferro, proveniente de água do mar isolada sob o gelo há pelo menos 1,5 milhão de anos
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Uma análise genética detalhada revelou que as Cataratas de Sangue, fenômeno onde um fluxo vermelho intenso emerge do glaciar Taylor e deságua no lago Bonney, na Antártida, servem como refúgio para microrganismos com origem marinha. O estudo, publicado na Nature Geoscience, investigou a vida microscópica oculta sob a massa de gelo para compreender a composição e a procedência desse ecossistema.
A coloração característica do local não é causada por organismos vivos, mas por uma salmoura rica em ferro. Devido à alta concentração de sal, esse fluido permanece líquido mesmo sob temperaturas extremas. O tom avermelhado surge no momento em que a substância atinge a superfície e o ferro entra em contato com o oxigênio, resultando em um processo de oxidação rápida.
Análise genética e atividade biológica
Para desvendar a natureza do local, a equipe de pesquisa coordenada pela microbiologista Angela Zoumplis, da Universidade da Califórnia em San Diego, realizou a coleta de 167 amostras de ar, gelo, lama, sedimentos e água. As amostras abrangeram as próprias cataratas, os Valles Secos de McMurdo e áreas marinhas adjacentes.
A metodologia baseou-se no estudo do ARN ambiental, técnica que permitiu aos pesquisadores distinguir entre restos genéticos preservados e organismos que mantêm atividade biológica funcional. A análise confirmou a existência de uma comunidade de microrganismos procarióticos e eucarióticos concentrada na saída da salmoura.
Entre as espécies identificadas, destacam-se:
- Diatomeas;
- Dinoflagelados;
- Haptofitas;
- Ciliados.
Esses grupos são tipicamente associados ao ambiente oceânico, o que torna sua presença incomum em um vale interior coberto de gelo.
Conexão com ecossistemas marinhos ancestrais
A relação com o oceano tornou-se evidente na extremidade do glaciar Taylor, onde 9,34% dos eucariotos detectados coincidem com organismos de amostras oceânicas próximas — índice significativamente superior aos 1,15% encontrados em outros pontos dos Valles Secos. A distribuição desses organismos, agrupados ao redor das cataratas e com divergências genéticas em relação aos parentes atuais, descarta a hipótese de que tenham sido transportados recentemente pelo vento.
Os dados indicam que a salmoura provém de água do mar aprisionada sob o gelo. Esse evento teria ocorrido em um período climático mais quente, quando o mar inundou o vale Taylor. Com a posterior queda do nível do mar e o avanço glacial, esse depósito teria ficado isolado por, no mínimo, 1,5 milhão de anos.
A alta salinidade do ambiente impediu o congelamento total, criando bolsas de água líquida que serviram de abrigo. Enquanto alguns microrganismos desenvolveram adaptações a essas condições extremas, outros sobreviveram através de longos períodos de inatividade. Descobertas como essa, em um local identificado originalmente pelo geólogo Thomas Griffith Taylor em 1911, permitem reconstruir a evolução do cenário polar e analisar a vulnerabilidade da região a mudanças ambientais.