Aniquilação de matéria e antimatéria surge como proposta eficiente para viabilizar viagens interestelares
A aniquilação de matéria e antimatéria é proposta para a viagem interestelar por gerar 10¹⁰ MJ por quilograma, superando combustíveis químicos e nucleares. Modelos de propulsão incluem foguetes de feixe de núcleo, térmicos e microfissão-fusão catalisada. A viabilidade é limitada pelo custo de 62,5 trilhões de dólares por grama e dificuldades de armazenamento
:format(jpg)/f.elconfidencial.com%2Foriginal%2Fee6%2F5ea%2Fc24%2Fee65eac240caf774dd97b6a7ff39cfcf.jpg)
A aniquilação entre matéria e antimatéria surge como uma das propostas mais eficientes para viabilizar a viagem interestelar, superando drasticamente a capacidade energética de combustíveis químicos, da fissão e da fusão nuclear. O conceito baseia-se na interação entre partículas e suas antipartículas correspondentes — como o próton e o antiproton, ou o elétron e o pósitron —, que possuem a mesma massa, mas cargas e momentos magnéticos opostos. Quando entram em contato, essas partículas se aniquilam, liberando uma quantidade de energia comparável a uma bomba termonuclear.
Essa reação gera partículas secundárias, como piones e muões, que viajam a um terço da velocidade da luz e podem ser direcionadas por toberas magnéticas para criar empuxo. Em termos de eficiência, a aniquilação de matéria e antimatéria pode produzir cerca de 10¹⁰ megajulios (MJ) por quilograma, o que representa 10 mil vezes mais energia que a combustão química e 300 vezes mais que a fusão nuclear.
Evolução teórica e experimental
A base científica para essa tecnologia começou a ser desenhada no final do século XIX com a física quântica. Em 1928, Paul A.M. Dirac previu a existência de antieletros ao aplicar a Teoria Especial de Relatividade de Einstein. Posteriormente, em 1930, Robert Oppenheimer utilizou as equações de Dirac para argumentar a favor dos pósitrons, que foram comprovados experimentalmente por Carl D. Anderson em 1932.
A confirmação dos antiprotons ocorreu em 1955, através de pesquisas de Emilio Segrè e Owen Chamberlain no Laboratório de Radiação Lawrence de Berkeley. Mais recentemente, a partir da década de 1990, o CERN conseguiu criar e capturar átomos de antihidrogênio por períodos que já alcançam milhares de segundos.
Modelos de propulsão e viabilidade
As propostas de engenharia para utilizar a antimatéria dividem-se em três categorias principais:
- Foguetes de feixe de núcleo: Buscam atingir velocidades relativistas. Eugene Sänger propôs, em 1953, um foguete de fótons baseado em raios gama, embora a densidade necessária para refletir essa energia só exista em estrelas anãs brancas. Em 1985, Robert Forward sugeriu o uso de piones carregados para atingir entre 0,33 e 0,58 da velocidade da luz. Outro modelo, de Darrel Smith e Jonathan Webby (2001), previa que uma nave de 400 toneladas chegaria a Próxima Centauri em oito anos. Já Robert Frisbee, do JPL da NASA, propôs em 2003 o uso de hidrogênio congelado e esferas de antihidrogênio levitadas magneticamente, estimando a necessidade de 815 mil toneladas de combustível para atingir 0,5 c.
- Foguetes térmicos: Focam em missões interplanetárias ao superaquecer fluidos como o hidrogênio. Friedwardt Winterberg descreveu em 2011 um sistema de laser de raios gama que poderia levar naves a Marte em apenas nove dias, com velocidades entre 36 mil e 252 mil km/h.
- Microfissão-fusão catalisada por antimatéria (ACMF): Utiliza pequenas doses de antimatéria para disparar reações de fusão nuclear em pastilhas de deutério e urânio-235. Steven D. Howe, em estudo de 2006 para o NIAC da NASA, calculou que um sistema de vela impulsionado por essa tecnologia reduziria a viagem a Marte para 45 dias.
Barreiras tecnológicas e econômicas
Apesar do potencial, a implementação prática enfrenta obstáculos monumentais. O custo de produção é o principal entrave: estima-se que produzir um único grama de antimatéria custaria 62,5 trilhões de dólares, valor que supera a metade do PIB mundial. Além disso, a energia necessária para criar a antimatéria em aceleradores de partículas atuais é superior à energia liberada na aniquilação. Atualmente, instalações como o CERN e o Fermilab produziram, juntas, menos de 20 nanogramas do material.
Para contornar a produção terrestre, Gerald P. Jackson e Elaine T. Marshall sugeriram a coleta de antimatéria no espaço em 2005. Em 2011, Richard Obousy propôs o sistema VARIES, que utilizaria lasers alimentados por painéis solares para criar combustível no vácuo, eliminando a necessidade de transporte de propelente.
O armazenamento também representa um desafio crítico. O uso de plasma é energeticamente inviável, e a alternativa de pastas congeladas de antihidrogênio é extremamente complexa, tendo sido alcançada apenas em escala atômica em laboratório. O design proposto por Robert Frisbee para solucionar o armazenamento exigiria naves com milhares de quilômetros de comprimento, mas apenas alguns metros de largura, tornando a construção proibitiva com a tecnologia atual.