Ciência

Astrônomos identificam o primeiro microquasar detectado dentro da Via Láctea

24 de Setembro de 2026 às 12:16 3 min de leitura

Astrônomos identificaram o IRAS 18293−0941, primeiro microquasar da Via Láctea, situado a 12.000 anos-luz. O sistema possui um buraco negro com dez vezes a massa solar que acelera partículas a energias 100 vezes superiores às do *Grande Colisor de Hádrons

-0:00
Astrônomos identificam o primeiro microquasar detectado dentro da Via Láctea
B. Marcote/JIVE/ASTRON/Martí et al. 2026

Astrônomos identificaram o IRAS 18293−0941 como o primeiro microquasar detectado dentro da Via Láctea. Localizado a aproximadamente 12.000 anos-luz de distância, o sistema funciona como um laboratório natural para o estudo de como buracos negros geram jatos de matéria com energias extremas, fenômeno que, até então, era observado predominantemente em galáxias remotas.

O sistema é composto por um buraco negro com massa dez vezes superior à do Sol e uma estrela que completa sua órbita a cada 11 dias. A força gravitacional do objeto compacto atrai material da estrela, formando um disco de acreção. Enquanto parte dessa matéria é absorvida, outra parcela é expelida para o espaço através de dois jatos opostos. A classificação como microquasar ocorre porque um desses jatos está orientado quase diretamente para a Terra.

Impacto no meio interestelar e aceleração de partículas

Análises de rádio demonstraram a capacidade de modificação do ambiente ao redor do sistema. O jato que se afasta da Terra limpou uma região de cerca de 100 anos-luz no meio interestelar. Embora essa escala seja menor do que a de quasares massivos, ela é considerada extraordinária para um sistema de massa estelar.

Um dos pontos centrais da descoberta é a interação de um desses jatos com uma nuvem densa de material interestelar. Esse impacto gera a aceleração de partículas a energias aproximadamente 100 vezes maiores do que as produzidas no Grande Colisor de Hádrons. Tais partículas atingem velocidades próximas à da luz, posicionando o IRAS 18293−0941 como um dos aceleradores de partículas mais extremos da nossa galáxia.

Metodologia e relevância científica

Embora o objeto tenha sido detectado originalmente em 1983 pelo satélite infravermelho IRAS, a nova interpretação sobre sua natureza resultou de uma abordagem multifacetada. A equipe de pesquisadores integrou dados de ondas de rádio, raios X, raios gama e luz visível para mapear o comportamento do buraco negro e a propagação de seus jatos.

A proximidade do sistema em relação à Terra resolve um problema técnico comum na astronomia: a dificuldade de observar a estrutura interna de quasares supermassivos devido à distância colossal. Segundo Benito Marcote, cientista do ASTRON e JIVE, a existência de um objeto análogo na Via Láctea permite analisar a física desses fenômenos em detalhes impossíveis de obter em galáxias distantes.

Jakob van den Eijnden, da Universidade de Amsterdã, ressaltou que a conclusão do estudo dependeu da combinação de diferentes telescópios, já que nenhum instrumento isolado seria capaz de descrever a totalidade do processo. O estudo, que detalha como a energia é canalizada para o ambiente espacial, foi aceito para publicação na revista Astronomy & Astrophysics e está disponível no arXiv.

Notícias Relacionadas