Aumento de cianobactérias tóxicas em reservatórios brasileiros compromete o abastecimento público de água
Reservatórios brasileiros registram aumento na proliferação de cianobactérias tóxicas devido a altas temperaturas e excesso de nutrientes. O fenômeno compromete o abastecimento público, pois as estações de tratamento convencionais não removem as toxinas dissolvidas. Dados de 2010 a 2024 indicam que a expansão do problema supera a modernização da infraestrutura hídrica
Reservatórios brasileiros apresentam um aumento na frequência, magnitude e duração da proliferação de cianobactérias potencialmente tóxicas. O fenômeno, documentado por pesquisadores de limnologia de universidades, institutos de pesquisa e órgãos de saneamento de todas as regiões do país, compromete serviços ecossistêmicos essenciais, como a pesca, a recreação, a irrigação e, principalmente, o abastecimento público de água.
Esses microrganismos fotossintéticos, conhecidos como algas azul-esverdeadas, são bactérias que desempenham papéis ecológicos importantes em equilíbrio. No entanto, a multiplicação acelerada ocorre quando há a combinação de temperaturas elevadas da água, alta incidência solar e excesso de nutrientes, especialmente fósforo e nitrogênio. Esse processo gera florações densas que alteram a cor, o odor e a qualidade da água, podendo liberar cianotoxinas prejudiciais à pele, ao sistema nervoso e ao fígado.
O cenário brasileiro favorece essa dinâmica devido ao clima tropical e a fatores antrópicos. O desmatamento de matas ciliares reduz a retenção de nutrientes, enquanto a compactação do solo agrícola e o lançamento de esgoto sem tratamento elevam a carga de fertilizantes e detritos nos mananciais. O fósforo, em particular, atua como o nutriente limitante que controla o crescimento dessas populações; quando sua concentração aumenta, o crescimento se acelera. Além disso, o fósforo acumulado nos sedimentos do fundo dos reservatórios pode ser liberado novamente na água sob condições de baixa oxigenação e alta temperatura, mantendo o sistema eutrofizado mesmo se as fontes externas forem reduzidas.
A vulnerabilidade do sistema de abastecimento é evidenciada pela limitação das Estações de Tratamento de Água (ETAs). A maioria opera com processos convencionais — coagulação, floculação, sedimentação, filtração e cloração —, que são eficazes contra partículas e microrganismos, mas insuficientes para remover toxinas dissolvidas. Se as células das cianobactérias se rompem naturalmente ou durante a cloração, substâncias como a microcistina são liberadas e podem atravessar as etapas de tratamento tradicionais. Para combatê-las, são necessárias tecnologias adicionais, como ozonização, filtração por membranas ou uso de carvão ativado, que ainda não foram implementadas universalmente.
O risco real dessa falha sistêmica foi registrado em fevereiro de 1996, em Caruaru, Pernambuco. Na ocasião, a presença de microcistina na água utilizada em clínicas de hemodiálise causou sintomas graves, como icterícia, náuseas e dores abdominais, resultando na morte de 52 pessoas. O evento foi o primeiro caso mundial de óbitos em larga escala associados a cianotoxinas em água tratada e gerou a criação de normas de potabilidade no Brasil.
Eventos mais recentes reforçam a fragilidade dos mananciais sob estresse. Entre 2014 e 2015, a crise hídrica no Sistema Cantareira, que atende a Região Metropolitana de São Paulo, elevou a temperatura da água e a concentração de nutrientes. Isso resultou em florações nos reservatórios Jacareí e Jaguari, com níveis de microcistina que superaram os limites recomendados para água bruta, exigindo uso intensivo de carvão ativado para manter a potabilidade. No Nordeste, a situação é estrutural: a baixa renovação da água, a geometria de reservatórios rasos e a forte incidência solar favorecem a recorrência de espécies tóxicas, como a cilindrospermopsina (danos hepáticos e renais) e a saxitoxina (sistema nervoso).
Dados coletados entre 2010 e 2024 indicam que a expansão do problema avança mais rápido que a modernização da infraestrutura de tratamento. A literatura científica aponta que a solução envolve a restauração de matas ciliares, ampliação do saneamento básico, monitoramento contínuo de toxinas e a atualização tecnológica das ETAs. Embora viáveis, a implementação dessas medidas enfrenta desafios de custo e a ausência de políticas públicas integradas.