Ausência de humanos torna Zona de Exclusão de Chernobyl refúgio para a vida selvagem
Estudo da Universidade Albert Ludwig de Freiburg registrou 19.832 detecções de fauna silvestre na Zona de Exclusão de Chernobyl entre 2020 e 2021. A pesquisa indica que a ausência humana favoreceu a diversidade de espécies, como ursos-pardos e cavalos-de-przewalski, superando a eficácia de reservas naturais geridas
A Zona de Exclusão de Chernobyl (CEZ), estabelecida após a explosão do reator em 26 de abril de 1986, transformou-se em um refúgio inesperado para a vida selvagem. O que inicialmente era visto como um território biologicamente devastado revelou-se um ambiente onde a ausência humana superou os impactos da radiação, permitindo a prosperidade de diversas espécies.
Um estudo recente, liderado pela ecóloga Svitlana Kudrenko, da Universidade Albert Ludwig de Freiburg, e publicado na revista *Proceedings of the Royal Society B*, detalha esse renascimento. Entre 2020 e 2021, pesquisadores utilizaram armadilhas fotográficas em 60 mil quilômetros quadrados no norte da Ucrânia, abrangendo a CEZ, reservas naturais e zonas sem proteção. O levantamento registrou 31.200 detecções de 13 espécies silvestres, sendo que mais da metade desses registros — 19.832 — ocorreram dentro da zona de exclusão.
Os modelos estatísticos indicam que a densidade, a frequência de detecção e a diversidade da fauna na CEZ são significativamente maiores do que em reservas naturais geridas ativamente para a conservação. A região hoje abriga populações de alces, javalis, cervos-vermelhos, bisões-europeus, linces-euroasiáticos, ursos-pardos e lobos-cinzentos. Destacam-se os cavalos-de-przewalski, reintroduzidos no fim dos anos 1990 após serem considerados extintos na natureza; apenas em um setor ucraniano, existem mais de 150 exemplares da espécie.
A análise sugere que o afastamento humano — que envolveu a evacuação de mais de 100 mil pessoas e a proibição de atividades econômicas e residenciais em uma área de 2.600 quilômetros quadrados — foi o fator determinante. Com o fim da caça, a deterioração das estradas e o abandono de campos agrícolas, as espécies mais sensíveis à presença humana encontraram um habitat seguro. Cavalos-de-przewalski, ursos-pardos e cervos-vermelhos foram detectados milhares de vezes dentro da zona de exclusão e quase nunca fora dela. Em contrapartida, a raposa-vermelha, animal adaptável ao convívio humano, não apresentou aumento populacional comparável. No caso dos alces, observou-se que a presença do animal diminuía quando pesquisadores entravam na área.
Embora a radiação não pareça limitar a distribuição de grandes mamíferos, ela provocou adaptações biológicas em outras espécies. Pererecas-orientais na CEZ são, em média, 43% mais escuras que as do restante da Ucrânia, devido à melanina, pigmento que protege as células contra danos radioativos. No interior do reator, fungos ricos em melanina colonizam áreas saturadas de radiação ionizante, com evidências laboratoriais de que podem crescer com mais vigor sob exposição radioativa. Já os lobos-cinzentos apresentam alterações no sistema imunológico e mutações associadas a mecanismos de proteção celular, semelhantes a efeitos observados em humanos submetidos à radioterapia.
Os resultados do trabalho de Kudrenko indicam que a eficácia de áreas protegidas está mais ligada à amplitude do território, à interconexão de habitats e ao afastamento real de humanos do que a regulamentações rígidas. Atualmente, a invasão russa de 2022 dificultou o acesso à região, limitando novas pesquisas de campo em um ecossistema moldado pelo abandono e pela radioatividade.