China lança primeiro navio de pesquisa científica financiado por capital privado do país
A China integrou à sua frota o Haiying Surveyor, primeiro navio de pesquisa científica de capital privado do país, financiado por 37 pescadores com 130 milhões de yuans. A embarcação de 3.500 toneladas foi construída pelo estaleiro Zhejiang Tenglong Shipbuilding e será operada pela Fujian Baozhou Shipping. O navio realiza exploração de águas profundas, pesquisas geofísicas e suporte a campos de petróleo e parques eólicos
A China integrou à sua frota marítima o Haiying Surveyor, o primeiro navio de pesquisa científica de capital privado do país. A embarcação foi apresentada em cerimônia de batismo realizada nesta terça-feira (5), em Wenling, na província de Zhejiang. O projeto apresenta uma estrutura de financiamento atípica: o montante de 130 milhões de yuans (aproximadamente US$ 18 milhões) foi reunido por um grupo de 37 pescadores locais.
Com 82 metros de comprimento, 15,2 metros de largura e 3.500 toneladas de deslocamento, o navio foi projetado pelo Fujian Fuchuan Marine Engineering Technology Research Institute e construído pelo estaleiro Zhejiang Tenglong Shipbuilding. A construtora, que tradicionalmente fabricava dragas, graneleiros e navios de pesca, realizou um salto tecnológico com esta obra, sendo este o seu primeiro navio de pesquisa. A operação da embarcação ficará a cargo da Fujian Baozhou Shipping, empresa sediada em Quanzhou.
O Haiying Surveyor é uma plataforma multimissão com capacidade para navegar 10 mil milhas náuticas sem reabastecer e autonomia de 60 dias em mar. Equipado com propulsão diesel-elétrica DP2, o navio possui posicionamento dinâmico com precisão de um metro, característica fundamental para atividades de mapeamento do fundo marinho e suporte a plataformas de petróleo em condições de vento e correntes. Sua velocidade de cruzeiro é de 14 nós (cerca de 26 km/h) e o calado projetado é de 4 metros.
As capacidades operacionais da embarcação abrangem a exploração de águas profundas, operação de veículos operados remotamente (ROVs), pesquisas geofísicas e geológicas, além de suporte a campos petrolíferos e parques eólicos offshore. Tais especificações equiparam o navio a embarcações contratadas por grandes operadoras globais, como TotalEnergies, Equinor e Petrobras, para serviços de levantamento sísmico e mapeamento de bacias.
A iniciativa reflete a articulação entre as províncias de Zhejiang e Fujian, regiões com longa tradição em comércio e navegação. A entrada de um player privado chinês neste segmento impacta o mercado global de serviços de survey offshore, tradicionalmente dominado por empresas europeias e norueguesas. Para o Brasil, a expansão de navios com essa capacidade de mapeamento e operação de ROVs é um fator relevante, dado que a Petrobras e outras operadoras dependem desses serviços para a exploração de reservas nas bacias de Santos e Campos.
O lançamento ocorre em um contexto onde a China já detém a maior frota civil de pesquisa do mundo, com cerca de 64 navios ativos, a maioria de natureza estatal. Dados do projeto Hidden Reach, do Center for Strategic and International Studies (CSIS), baseados na plataforma Windward, indicam que mais de 80% dessas embarcações apresentam vínculos organizacionais ou comportamentos que sugerem a perseguição de objetivos estratégicos de Pequim.
Embora não existam acusações formais contra o Haiying Surveyor, o cenário é marcado pelo debate sobre o "uso duplo" de navios científicos. O Maritime Executive aponta que pescadores de Zhejiang e Fujian são conhecidos por integrarem milícias marítimas. A diversificação do modelo de expansão marítima chinesa, agora incluindo financiamento privado, coloca a embarcação em uma zona de interseção entre a ciência, a energia e a geopolítica.