Cientistas descobrem verme capaz de sobreviver a profundidades extremas em mina de ouro na África do Sul
O nematoide Halicephalobus mephisto foi identificado a 1,3 km de profundidade na mina de ouro Beatrix, na África do Sul. A espécie possui proteínas de choque térmico e reprodução assexuada para sobreviver em ambientes quentes e isolados
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A descoberta de vida animal em profundidades extremas da crosta terrestre tem revelado novas perspectivas sobre a resiliência biológica e as origens da vida. Um dos casos mais emblemáticos é o do Halicephalobus mephisto, popularmente conhecido como verme-do-diabo, um nematoide minúsculo capaz de sobreviver em ambientes sem luz solar e com escassez de oxigênio.
A descoberta nas profundezas
A existência de organismos complexos no subsolo era motivo de ceticismo na comunidade científica até o início dos anos 2000. No entanto, em 2008, uma expedição liderada pelo biólogo Gaetan Borgonie, do instituto Extreme Life Isyensya, na Bélgica, identificou o espécime na mina de ouro Beatrix, na África do Sul. O animal foi capturado a 1,3 km de profundidade, após a filtragem de mais de 6 mil litros de água extraída de perfurações nas rochas, a uma temperatura de 37 °C.
Em outras minas sul-africanas, onde foram filtrados volumes superiores a 12 milhões de litros de água, pesquisadores localizaram fungos, invertebrados e diversas espécies de nematoides. Embora a maioria fosse conhecida na superfície, o exemplar da mina Beatrix era inédito, recebendo a classificação oficial em 2011.
Adaptações biológicas e sobrevivência
O Halicephalobus mephisto apresenta características fisiológicas rigorosamente adaptadas ao calor. Estudos genômicos realizados em 2019 por John Bracht, da Universidade Americana, revelaram que a espécie possui uma quantidade elevada de genes que produzem proteínas de choque térmico, responsáveis por proteger a estrutura celular contra danos causados por temperaturas extremas.
Outro mecanismo crucial é a citocromo c oxidase, molécula essencial para o consumo de oxigênio. Pesquisas de 2024 indicaram que essa molécula do verme-do-diabo só é ativada em altas temperaturas. Quando exposto a 20 °C, o animal torna-se letárgico e seu ciclo de vida se prolonga para oito dias; já a 37 °C, a reprodução ocorre a cada dois dias.
A sobrevivência da espécie também está ligada à sua capacidade reprodutiva. O único exemplar original capturado era uma fêmea partenogênica, capaz de gerar descendentes sem a necessidade de acasalamento. Essa reprodução assexuada é vista como uma estratégia vital em ambientes vastos e isolados, onde a probabilidade de encontro entre indivíduos da mesma espécie é mínima.
A biosfera profunda e a escala temporal
A presença de vida no subsolo não é isolada. Estimativas da geobióloga Cara Magnabosco, do Instituto Federal de Tecnologia de Zurique, sugerem que os micróbios da biosfera profunda representam entre 12% e 20% de toda a biomassa microbiana da Terra. Acredita-se que alguns nematoides migrem da superfície para as profundezas através da água, possivelmente impulsionados por atividades sismológicas.
No caso das bactérias, a permanência no subsolo pode ser milenar. Um estudo de 2021, conduzido por Maggie Lau no Instituto de Engenharia e Ciências do Mar Profundo, na China, identificou a bactéria Desulforudis audaxviator em três continentes diferentes. A semelhança genética quase idêntica entre esses grupos, somada ao fato de não terem sido encontradas na superfície, indica que elas habitam a crosta terrestre desde a fragmentação do supercontinente Pangeia, há aproximadamente 165 milhões de anos.
Essas descobertas sugerem que a vida nas profundezas pode servir como um reservatório biológico, capaz de repovoar a superfície do planeta mesmo após eventos de extinção em massa, como o impacto de asteroides.