Consumo de ultraprocessados está associado a reações cerebrais intensas e aumento de gordura em crianças
Estudo da Universidade do Sul da Califórnia indica que crianças com maior consumo de alimentos ultraprocessados apresentam reações intensas no estriado dorsal ao verem imagens de comida. Essa atividade cerebral associou-se ao aumento do percentual de gordura e do IMC nos participantes entre 7 e 10 anos. Os resultados foram publicados na revista *JAMA Network Open

Pesquisadores da Universidade do Sul da Califórnia (USC) identificaram que crianças com maior consumo de alimentos ultraprocessados apresentam reações mais intensas em áreas do cérebro ligadas à motivação e recompensa ao visualizarem imagens de comida. O estudo, publicado em 23 de outubro de 2026 na revista JAMA Network Open, observou que essa atividade cerebral está associada a um aumento posterior da gordura corporal.
Para a investigação, 46 meninos e meninas, com idades entre 7 e 10 anos e peso saudável no início do processo, foram submetidos a exames de ressonância magnética funcional. A técnica permitiu monitorar a oxigenação do sangue no estriado dorsal, região responsável pela formação de hábitos e mecanismos de recompensa.
Metodologia e estímulos cerebrais
Durante os testes, as crianças observaram fotografias de itens apetitosos, como batatas fritas e biscoitos, além de objetos neutros, como bancos e lápis, para fins de comparação. Para evitar que a fome imediata interferisse nos resultados, as imagens foram apresentadas após as crianças terem se alimentado.
O perfil alimentar dos participantes foi traçado com o auxílio dos responsáveis, que relataram o consumo de bebidas e alimentos em dois períodos de 24 horas. A classificação dos produtos seguiu o sistema NOVA, que categoriza os itens pelo grau de processamento industrial. No grupo estudado, a média de calorias provenientes de ultraprocessados — como macarrão instantâneo, refrigerantes, cereais matinais e biscoitos recheados — foi de 67,7%.
Relação entre dieta e composição corporal
A análise dos dados revelou que a intensidade da resposta no estriado dorsal diante das fotos de comida era maior naquelas crianças que consumiam mais produtos industrializados. Embora o estudo não comprove que os ultraprocessados modifiquem o cérebro, ele sugere que a sensibilidade a esses estímulos pode influenciar a escolha alimentar ou vice-versa.
O acompanhamento dos participantes por cerca de um ano trouxe dados sobre a evolução física:
- Crianças com respostas cerebrais mais intensas registraram maiores aumentos no percentual de gordura e no índice de massa corporal (IMC).
- O consumo elevado de ultraprocessados foi associado a um crescimento maior da circunferência da cintura.
Ao integrar a atividade do estriado dorsal aos cálculos estatísticos, a associação entre o consumo de ultraprocessados e as mudanças no IMC reduziu em 31%, enquanto a relação com o percentual de gordura caiu 44%. Esses índices indicam que a resposta cerebral pode ser um elo intermediário entre a dieta e a alteração da composição corporal.
Limitações e contexto preventivo
Kathleen Page, professora de medicina e pediatria da USC, ressaltou a relevância de analisar essas conexões enquanto os hábitos alimentares ainda estão em formação. No entanto, a equipe de pesquisa pontuou que o estudo possui limitações, como a amostra reduzida de 46 crianças, a dependência de relatos alimentares e a realização de exames cerebrais em um único momento.
Por ser uma pesquisa observacional, não se pode afirmar que os alimentos causaram as alterações cerebrais. O estudo destaca, porém, a influência do ambiente alimentar, onde a praticidade e a disponibilidade de produtos ultraprocessados moldam as escolhas familiares. No Brasil, a recomendação do Ministério da Saúde é a priorização de alimentos in natura ou minimamente processados, especialmente na infância.