Ciência

DARPA investe 73 milhões de dólares para desenvolver sangue artificial com armazenamento prolongado

14 de Outubro de 2026 às 15:14 4 min de leitura

A DARPA investiu 73 milhões de dólares no desenvolvimento de sangue artificial liofilizado para uso imediato em campos de batalha. O projeto busca criar plasma, plaquetas e glóbulos vermelhos armazenáveis por anos em temperatura ambiente em um prazo inferior a dois anos

-0:00
DARPA investe 73 milhões de dólares para desenvolver sangue artificial com armazenamento prolongado
Donación de sangre en hospitales de madrid

A agência de projetos avançados dos EUA, a DARPA, investiu 73 milhões de dólares para desenvolver um sangue artificial capaz de ser transportado em mochilas e armazenado por anos. O objetivo é disponibilizar plasma, plaquetas e glóbulos vermelhos liofilizados para uso imediato em campos de batalha em um prazo inferior a dois anos.

A iniciativa visa solucionar a vulnerabilidade logística do sangue biológico, que possui validade curta: 35 dias sob refrigeração para o sangue total e apenas uma semana para as plaquetas em temperatura ambiente. Atualmente, a dependência de centros de armazenamento refrigerados e a complexidade do descongelamento de plasma e glóbulos vermelhos limitam a eficácia do atendimento emergencial.

O fator crítico do tempo na sobrevivência

A urgência do projeto fundamenta-se em dados clínicos sobre hemorragias, que representam 90% das mortes evitáveis em combate e são a principal causa de mortalidade materna global. De acordo com o tenente-comandante Robert Murray, líder do programa na DARPA, a sobrevivência de pacientes com hemorragias é quase garantida se a transfusão ocorrer nos primeiros 36 minutos após a lesão, janela temporal identificada em estudos sobre feridos no Afeganistão.

A escassez de suprimentos é um problema também civil. Um estudo de 2025, publicado na revista Transfusion, revelou que apenas 1% de 1,2 milhão de pacientes com traumas nos EUA que necessitavam de sangue antes de chegar ao hospital receberam o recurso. O Conselho Americano de Cirurgiões estima que essa carência resulte em 10 mil mortes evitáveis anualmente no país.

Desafios técnicos e soluções por componente

A reprodução do sangue completo exige abordagens distintas para cada componente, variando em nível de complexidade:

  • Plasma: É o elemento mais simples de reproduzir via liofilização (processo de remoção de água após congelamento). A técnica, utilizada na Segunda Guerra Mundial e retomada em 2010, já resultou em dois tipos de plasma autorizados pela FDA para uso militar, sendo um deles também permitido para civis.
  • Plaquetas: A empresa Cellphire desenvolveu a liofilização de plaquetas humanas com eficácia em testes clínicos, embora a produção em larga escala ainda seja incerta por depender de doadores. Paralelamente, a Haima Therapeutics desenvolveu a SynthoPlate, uma plaqueta sintética composta por três peptídeos. Segundo artigo na Advanced Science, a tecnologia reduziu o sangramento em ratos e resiste a temperaturas de até 50 °C por três meses, com viabilidade de produção industrial.
  • Glóbulos Vermelhos: Representam o maior desafio técnico, pois a hemoglobina sem membrana degrada-se rapidamente e pode lesionar órgãos. Tentativas da DARPA em 2008 falharam devido ao alto custo de produção. Atualmente, a KaloCyte desenvolveu o ErythroMer, que encapsula a hemoglobina em nanopartículas lipídicas. O produto é liofilizado e dura dois anos em temperatura ambiente, tendo mantido a pressão arterial e a oxigenação de ratos em testes de 2016.

Geopolítica e viabilidade do projeto

A mudança na Estratégia de Defesa Nacional de 2018, que deslocou o foco do combate ao terrorismo para possíveis conflitos com Rússia ou China, evidenciou o risco de depender de fontes únicas de suprimento. O perigo dessas operações foi exemplificado em 2007, no Iraque, quando a queda de um helicóptero em missão de coleta de sangue resultou na morte de sete tripulantes.

Além de empresas como Abioremedi e Octapharma USA, a DARPA financia outros cinco contratados, embora o ciclo de financiamento seja curto, de apenas um ano. Foram registrados também avanços no Japão, onde cientistas testam em humanos a hemoglobina encapsulada através da RAPIID, com cronograma de estudos em animais e testes humanos.

Apesar dos avanços, há ceticismo acadêmico. John Holcomb, pesquisador da Universidade de Alabama em Birmingham, questiona a possibilidade de reproduzir todas as funções do sangue natural, sugerindo que a solução pode não ser a replicação total, mas a combinação de diferentes produtos sintéticos para manter o volume intravascular e a sobrevivência do paciente.

Notícias Relacionadas