Ciência

Embrapa desenvolve protótipo de carne de frango cultivada em laboratório com suporte de bactérias

30 de Outubro de 2026 às 15:03 3 min de leitura

Pesquisadores da Embrapa Suínos e Aves criaram um protótipo de carne de frango cultivada em laboratório usando células-tronco mesenquimais e nanocelulose bacteriana. A tecnologia, detalhada na revista NPJ Science of Food, utiliza a bactéria Novacetimonas hansenii para estruturar o tecido e simular cortes como o sassami

-0:00
Embrapa desenvolve protótipo de carne de frango cultivada em laboratório com suporte de bactérias
Embrapa cria carne de frango em laboratório com células vivas de galinha e estrutura comestível feita por bactérias. Estudo viu frango parecido com o de granja.

Pesquisadores da Embrapa Suínos e Aves, em Santa Catarina, desenvolveram um protótipo de carne de frango cultivada em laboratório utilizando células vivas de galinha e uma estrutura de suporte produzida por bactérias. O estudo, publicado em 2025 na revista NPJ Science of Food, apresenta a criação de um tecido que mimetiza a aparência e a organização da carne convencional, sendo classificado como uma alternativa de proteína sustentável.

A tecnologia da nanocelulose bacteriana

O diferencial do projeto reside no uso da bactéria Novacetimonas hansenii, que produz a nanocelulose em formato de hidrogel. Essa substância comestível atua como um "esqueleto" para as células, conferindo ao produto final a estrutura necessária para simular cortes reais, como o sassami (filé de peito de frango).

As estruturas de nanocelulose, desenvolvidas inicialmente na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), recebem as células de frango por meio de uma técnica de perfusão, onde um líquido transporta as células para dentro do suporte.

Processo de cultivo e resultados

Para a composição da carne, foram utilizadas células-tronco mesenquimais provenientes de ovos livres de patógenos e do plantel genético da própria Embrapa. O processo de crescimento ocorreu em duas modalidades:

  • 2D: as células crescem em camada única e achatada;
  • 3D: as células organizam-se em pequenas esferas denominadas esferoides.

A análise demonstrou que o formato 3D reproduz melhor o ambiente natural, facilitando a diferenciação celular. Em ambos os métodos, as células permaneceram vivas e mantiveram suas propriedades. A organização tecidual foi especialmente eficiente na nanocelulose modificada, apresentando semelhanças visuais significativas com o frango de granja.

Sustentabilidade e saúde pública

A produção de carne cultivada surge como uma estratégia para mitigar impactos ambientais relacionados ao uso de terra, água e emissão de gases de efeito estufa. Além disso, como o cultivo ocorre em ambiente controlado, a técnica pode eliminar a necessidade de antimicrobianos, reduzindo a resistência a antibióticos e o risco de zoonoses.

O projeto, liderado pela pesquisadora Vivian Feddern, foi viabilizado com apoio do The Good Food Institute (GFI). A escolha pelo frango deve-se à versatilidade da proteína e ao seu alto valor nutricional, sendo amplamente consumida no mercado brasileiro.

Perspectivas de mercado e regulação

Enquanto a maioria das empresas do setor, como JBS, BRF e Cellva Ingredients, foca em produtos não estruturados (como hambúrgueres e embutidos), a Embrapa busca a complexidade de filés e bifes. Globalmente, a demanda por aves deve atingir 131 milhões de toneladas em 2026, segundo a OECD-FAO.

No cenário internacional, países como Singapura, Estados Unidos, Israel e Holanda já possuem aprovações para venda ou degustação de carnes cultivadas. No Brasil, a regulamentação ainda não existe, mas o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) trabalha na elaboração do Plano Nacional de Proteínas Alternativas (PNPA).

Infraestrutura e aceitação

Para facilitar a entrada de startups e indústrias no setor, a Embrapa planeja a criação de um biobanco de células de frango. Essa reserva de linhagens celulares, sugerida pela pesquisadora Ana Paula Bastos, evita a necessidade de iniciar novos cultivos do zero e reduz barreiras tecnológicas.

Quanto à aceitação do público, uma pesquisa realizada pela Embrapa com moradores da Região Sul do Brasil indicou disposição em experimentar a carne cultivada. No entanto, os consumidores ainda manifestam dúvidas sobre o sabor, a textura, o valor nutritivo e a segurança do processo de produção.

Notícias Relacionadas