Ciência

Equipe médica em Moscou realiza o primeiro transplante de medula espinhal humana da história

21 de Outubro de 2026 às 15:50 4 min de leitura

Médicos do Instituto Sklifosovsky, em Moscou, realizaram o primeiro transplante de medula espinhal humano em um paciente paralisado. O procedimento, liderado pelo cirurgião Xiaoping Ren, substituiu um segmento lesionado por tecido de um doador em morte cerebral. A cirurgia durou 12 horas e o paciente permanece em estado estável

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Equipe médica em Moscou realiza o primeiro transplante de medula espinhal humana da história
Cottonbro studio- Pexels

Uma equipe médica do Instituto de Pesquisa de Medicina de Emergências N. V. Sklifosovsky, em Moscou, realizou o que afirma ser o primeiro transplante de medula espinhal humano da história. O procedimento, liderado pelo cirurgião chinês Xiaoping Ren, consistiu na remoção de um segmento danificado da medula de um paciente paralisado, substituindo-o por um tecido saudável proveniente de um doador em estado de morte cerebral.

O anúncio foi divulgado em 16 de outubro de 2026 por Serguei Sobianin, prefeito de Moscou. De acordo com a autoridade, a cirurgia durou 12 horas e contou com a transferência de tecnologia médica de especialistas chineses. O paciente, um adulto que sofria de lesão medular completa decorrente de um trauma ocorrido há três anos, encontra-se em estado estável, embora não tenham sido detalhados seu estado neurológico prévio ou o nível exato da lesão.

A técnica de fusão medular

O método proposto por Xiaoping Ren, médico do Segundo Hospital Associado da Universidade de Medicina de Guangxi, busca superar a limitação natural de regeneração dos axônios — prolongamentos dos neurônios responsáveis pela transmissão de sinais no sistema nervoso central. Em casos de lesões, a inflamação e a formação de cicatrizes costumam impedir a reconexão funcional.

Para viabilizar a união entre as extremidades da medula, a equipe utilizou a microcirurgia combinada ao polietileno glicol (PEG). Este polímero é utilizado para facilitar o fechamento das membranas dos axônios recém-cortados. A hipótese científica é que, ao banhar duas superfícies saudáveis com PEG, as fibras de ambos os lados se fundam, permitindo que o sistema nervoso aprenda a utilizar essas novas conexões.

Histórico e testes experimentais

A base teórica da técnica remonta a tentativas iniciais no início do século XX. Em 1905, David Shirres descreveu um transplante de medula de cão em um humano, que faleceu por infecção. Posteriormente, em 1944, cirurgiões nos Estados Unidos utilizaram um fragmento de medula de cadáver preservado em formalina em um jovem de 16 anos, que também não apresentou melhora e morreu meses depois.

Antes da intervenção em Moscou, o grupo de Ren realizou diversos testes:

  • Modelos animais: Em 2024, foram feitos transplantes entre 12 pares de cães beagles. Aqueles que receberam o imunossupressor tacrolimus recuperaram parte da função motora em seis meses. Contudo, os cortes nos animais foram precisos, diferindo da força bruta de um trauma real.
  • Testes em humanos (autotransplantes): Em 2022, oito pacientes paraplégicos receberam fragmentos de sua própria medula. Apenas um apresentou melhora motora, e alguns pacientes sofreram a elevação do nível da lesão devido à remoção de tecidos saudáveis adjacentes. Outro estudo com 12 pacientes utilizou um nervo da perna como "ponte", sem uso de tecidos externos.

Contexto regulatório e controvérsias científicas

A viabilização do procedimento em solo russo foi impulsionada por uma norma do Ministério da Saúde e da Academia de Ciências da Rússia, vigente desde 1º de setembro, que incluiu a medula espinhal e seus fragmentos na lista oficial de tecidos transplantáveis.

Apesar do entusiasmo de colaboradores como Sergio Canavero, a comunidade científica mantém reservas. Melissa Andrews, da Universidade de Southampton, alerta para o alto risco de infecção e a baixa probabilidade de regeneração funcional, questionando o rigor dos estudos com animais. Já Andrew Jackson, da Universidade de Newcastle, embora reconheça a utilidade do PEG na união de nervos, ressalta a dificuldade extrema de integrar dois pedaços adultos do sistema nervoso de forma funcional.

Atualmente, a equipe médica ainda não publicou os resultados clínicos detalhados ou o protocolo do procedimento. A ausência de dados sobre a condução de sinais neurológicos após a cirurgia impede que a comunidade científica valide a eficácia do implante.

Impacto das lesões medulares

A busca por soluções para a paralisia é urgente, dado que a Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que mais de 15 milhões de pessoas vivam com lesões na medula. A recuperação da conexão medular poderia restaurar a mobilidade das mãos e pernas, a sensibilidade e o controle esfincteriano, além de reduzir complicações respiratórias e infecções. Segundo a OMS, mais de 60% dos adultos afetados ficam incapacitados para o trabalho, gerando altos custos financeiros para os pacientes e seus cuidadores.

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