Espécie de arraia considerada extinta há 30 anos é redescoberta na costa de Murcia, Espanha
A arraia guitarra, espécie em perigo crítico de extinção, foi redescoberta na costa de Murcia, Espanha, após 30 anos. O projeto GuitarProtect monitora cerca de 60 indivíduos através de telemetria acústica e colaboração cidadã. Novas etapas de pesquisa utilizarão ROVs e BRUVs para investigar migrações em profundidades de até 100 metros
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A redescoberta da arraia guitarra (Rhinobatos rhinobatos) na costa de Murcia, Espanha, transformou o oásis de Cabo de Palos em um ponto crítico para a conservação marinha. A espécie, que apresenta características intermediárias entre tubarões e arraias, era considerada extinta na região há mais de 30 anos, tendo sido vista pela última vez em águas da Espanha, França e Itália nas décadas de 1980 e 1990.
Atualmente classificada como em perigo crítico de extinção pela União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN), a espécie pertence ao grupo das Rhinopristiformes. Este grupo é um dos mais ameaçados do planeta, com metade de suas espécies em nível crítico de risco.
Monitoramento e a iniciativa GuitarProtect
Para entender a sobrevivência desses animais em Cabo de Palos, a pesquisadora Maria Pozo-Montoro, da Universidade de Murcia (UMU), fundou a iniciativa GuitarProtect. O projeto, que inclui a vertente "Guitar-Hero", busca responder por que a região se tornou um refúgio e por que a visibilidade dos animais oscila entre as estações do ano.
Devido à pequena população estimada em apenas 60 indivíduos, a perda de um único exemplar é considerada um impacto severo. Para monitorar a espécie, a equipe implementou as seguintes estratégias:
- Colaboração Cidadã: Mergulhadores e pescadores locais reportam avistamentos via e-mail ou Instagram.
- Telemetria Acústica: Instalação de hidrófones (receptores de ondas sonoras) para rastrear animais marcados, contornando a impossibilidade de uso de GPS sob a água.
Desde 2024, 34 indivíduos foram marcados com minitransmissores, em um esforço conjunto entre a UMU, a Universidade de Montpellier-Marbec, a Universidade de Las Palmas de Gran Canaria, o grupo Angelshark Project e o Ministério para a Transição Ecológica e o Reto Demográfico (MITECO).
Mistérios migratórios e novas tecnologias
Os dados coletados revelaram que Cabo de Palos é, de fato, um refúgio fundamental, com parte da população permanecendo na área durante todo o ano. No entanto, surgiu um novo enigma: os exemplares maiores desaparecem durante o inverno, retornando apenas na primavera, enquanto alguns indivíduos ainda não voltaram.
A rede de receptores acústicos atuais limita-se a 30 metros de profundidade, o limite do mergulho recreativo. Por isso, a hipótese principal é que as arraias migrem para águas mais profundas. Para testar essa teoria, a segunda fase do projeto, "Guitar-Hero 2", contará com o apoio da Fundação Biodiversidade do MITECO através do Programa Pleamar.
A nova etapa de pesquisa, conduzida por Pozo-Montoro e a etóloga Angélica Bas Gómez, expandirá a área de estudo até 100 metros de profundidade utilizando:
- ROVs (veículos operados remotamente);
- BRUVs (sistemas de vídeo com iscas).
Impacto ecológico e sobrevivência na Europa
A arraia guitarra atua como um predador essencial para o equilíbrio do ecossistema marinho. Ao regular populações e interagir com o fundo do mar, a espécie contribui para a oxigenação e a manutenção da cadeia alimentar, influenciando a saúde e a transparência da água.
A população de Murcia é apontada como uma das últimas populações estáveis e reprodutivas da Europa. A preservação deste grupo é estratégica, pois esses animais podem eventualmente migrar para áreas como Alicante, Valência ou Castellón, permitindo a reconquista de sua antiga distribuição geográfica e a conexão com populações do leste do Mediterrâneo, como as da Turquia, Líbano e Israel.
A principal ameaça à espécie continua sendo a pesca, que se tornou excessivamente eficiente, impedindo a recuperação de animais com ciclos de reprodução lentos. A sobrevivência da espécie agora depende de ações coletivas de monitoramento e do cumprimento da legislação, além de atitudes individuais, como a liberação imediata de exemplares capturados acidentalmente.