Estados Unidos investem 1,75 bilhão de dólares em 36 satélites para detecção de mísseis
Os Estados Unidos investirão 1,75 bilhão de dólares na contratação de 36 satélites para detecção e rastreamento de mísseis, incluindo armas hipersônicas. O projeto, dividido entre as empresas L3Harris Technologies e Sierra Space Corporation, integrará o sistema de defesa Golden Dome. A previsão de lançamento das naves em órbita terrestre baixa é até o final de 2028
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Os Estados Unidos formalizaram a contratação de 36 novas naves espaciais para expandir sua capacidade de detecção e resposta a possíveis ataques provenientes da Rússia e da China. O investimento total é de aproximadamente 1,75 bilhão de dólares, destinados a satélites capazes de identificar o lançamento de mísseis em qualquer região do globo e transmitir a trajetória para sistemas de interceptação em tempo real.
A nova frota visa fortalecer os sensores do Golden Dome, sistema de defesa antimísseis estabelecido por ordem executiva do presidente Trump em 27 de janeiro de 2025. Diferente de projetos anteriores da década de 80, trata-se de infraestrutura física e financiada, embora o programa ainda enfrente desafios geopolíticos, físicos e financeiros.
Distribuição de contratos e tecnologia de rastreamento
A execução do projeto foi dividida entre duas companhias:
- L3Harris Technologies: receberá cerca de 955 milhões de dólares para fabricar 18 naves baseadas no Hypersonic and Ballistic Tracking Space Sensor (HBTSS). Estes satélites são especializados em rastrear armas hipersônicas, que operam em velocidades e altitudes impossíveis de serem detectadas por radares e satélites convencionais.
- Sierra Space Corporation: produzirá outras 18 naves, por aproximadamente 798 milhões de dólares, focadas no alerta e rastreamento de mísseis, detectando lançamentos globais para permitir a reação terrestre.
De acordo com GP Sandhoo, responsável pela Força Espacial e líder da Agência de Desenvolvimento Espacial, o projeto AMDT3 amplia as capacidades das gerações anteriores (Tramos 1, 2 e 3) da Capa de Rastreamento do Sistema de Defesa Antirradiação (SDA), consolidando a rede de defesa antimísseis.
Configuração orbital e funcionamento técnico
As 36 naves serão distribuídas em quatro órbitas circulares fixas na órbita terrestre baixa — região situada a centenas de quilômetros de altitude. Cada anel orbital contará com nove satélites. Dois desses anéis serão dedicados ao alerta e rastreamento, enquanto os outros dois focarão na defesa antimísseis, equipados para dar suporte a interceptações reais. A previsão de lançamento é até o final de 2028.
Para garantir a eficiência, as naves AMDT3 operarão de forma integrada aos satélites dos Tramos 1 e 2 através de um sistema de terra compartilhado. A constelação completa deve ultrapassar 100 satélites, todos equipados com sensores de infravermelho de onda curta. Essa tecnologia detecta o calor da ignição de motores de foguetes, permitindo a visualização do alvo antes mesmo que ele seja visível a olho nu.
O sensor de cada nave consegue captar todo o hemisfério visível da Terra simultaneamente. O processamento de dados ocorre a bordo, convertendo as imagens em "trajetórias bidimensionais" antes do envio para a Terra.
Transmissão de dados e interoperabilidade
A comunicação dos dados processados ocorre por dois caminhos paralelos:
- Links de rádio na banda Ka, para movimentação rápida de grandes volumes de dados.
- Terminais de comunicação óptica, que utilizam laser para comprimir informações em feixes estreitos e mais seguros contra interceptações.
Para evitar incompatibilidades entre as naves da L3Harris e da Sierra Space, a Agência de Desenvolvimento Espacial implementou o padrão Optical Communication Terminal. Além disso, existe um link de backup na banda S para telemetria e comandos básicos. Christopher Kubasik, CEO da L3Harris, afirma que a capacidade de rastreamento e designação de alvos em órbita é fundamental para a proteção do território contra ameaças hipersônicas.
Viabilidade econômica e riscos estratégicos
Apesar do avanço tecnológico, a viabilidade do escudo é questionada por especialistas. Todd Harrison, do Center for Strategic and International Studies, estima que o custo de uma rede completa de interceptadores varie entre 370 bilhões e 1,2 trilhão de dólares. Um estudo de 2024 da Defense and Peace Economics indica que mesmo um sistema com metade da eficácia prometida poderia custar entre 430 bilhões e 5,3 trilhões de dólares, apontando que é financeiramente mais vantajoso para o adversário criar novos mísseis do que para os EUA fabricarem interceptadores.
No campo geopolítico, Jeffrey Lewis, do Middlebury Institute, observa que a China já possui planadores hipersônicos e pode responder ao escudo americano desenvolvendo ainda mais armas para contornar as defesas.
Há também implicações legais e de segurança:
- A implantação de interceptores em órbita pode violar o Tratado sobre o Espaço Ultraterrestre de 1967, que proíbe armas de destruição em massa no espaço.
- Victoria Samson, da Secure World Foundation, alerta que mesmo escudos sem carga nuclear podem ser vistos como ameaças por Moscou e Pequim, justificando represálias.
- Laura Grego, do MIT, argumenta que a tecnologia atual não é capaz de garantir proteção absoluta contra um ataque nuclear em larga escala.