Estudo associa sintomas de Covid longa a alterações no sistema de dopamina do cérebro
Estudo publicado na eBioMedicine associou a redução do marcador VMAT2 no cérebro a sintomas de Covid longa, como apatia, lentidão motora e lapsos de memória. A pesquisa identificou quedas de 16% a 20% desse indicador em regiões específicas do sistema de dopamina de 24 pacientes
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Alterações no sistema de dopamina do cérebro podem estar relacionadas a sintomas persistentes da Covid longa, como fadiga extrema, lentidão motora e lapsos de memória. Um estudo publicado na revista eBioMedicine identificou a redução de um marcador específico, o transportador vesicular de monoaminas 2 (VMAT2), em pacientes que apresentam quadros neuropsiquiátricos após a infecção.
O VMAT2 funciona como um indicador da integridade das terminações nervosas responsáveis pela liberação de dopamina. Por meio de tomografia por emissão de pósitrons (PET), os pesquisadores observaram que a diminuição desse marcador em regiões específicas do cérebro correlaciona-se com a intensidade de sintomas distintos:
- Estriado ventral: Redução de aproximadamente 20%, associada a quadros de apatia e perda de motivação.
- Putâmen dorsal: Queda de cerca de 16%, relacionada à lentificação dos movimentos.
- Caudado dorsal: Diminuição de aproximadamente 17%, vinculada ao pior desempenho em testes de memória verbal.
Metodologia e perfil dos participantes
A pesquisa comparou 24 adultos com Covid longa e 24 indivíduos saudáveis, todos com média de idade superior a 30 anos. O grupo de pacientes apresentava apatia e ao menos cinco sintomas neuropsiquiátricos ligados a episódios depressivos maiores, incluindo baixa energia, humor deprimido, anedonia (incapacidade de sentir prazer), declínio da memória e dificuldade de concentração.
Tais manifestações surgiram em até três meses após a fase aguda da doença — que, nos casos estudados, havia sido leve ou moderada — e persistiram por no mínimo três meses. O estudo não encontrou relação entre a variante do coronavírus ou o tempo decorrido desde a infecção e a redução do VMAT2.
Hipóteses e limitações biológicas
A redução do marcador pode indicar a perda de terminais nervosos dopaminérgicos ou, alternativamente, uma quantidade menor de vesículas que armazenam a dopamina. No entanto, os pesquisadores ressaltam que a análise indica uma associação, mas não prova que a alteração dopaminérgica seja a causa direta dos sintomas ou que tenha ocorrido a morte de neurônios.
Entre as hipóteses para esse comprometimento estão a ação direta do vírus sobre os neurônios ou a vulnerabilidade dessas células a processos inflamatórios cerebrais. Outras possibilidades, como disfunções mitocondriais, alterações vasculares e respostas imunológicas, também são consideradas.
O estudo possui limitações importantes, como a amostra reduzida e o perfil específico dos participantes, que não abrange todas as manifestações da Covid longa. Além disso, como os exames foram realizados apenas uma vez, não é possível determinar se a alteração surgiu após a infecção ou se é reversível.
Perspectivas de tratamento
A descoberta abre caminho para investigar se medicamentos que atuam na dopamina podem mitigar os sintomas. Contudo, não há evidências atuais para recomendar esse tipo de terapia como rotina, dado que fármacos dopaminérgicos podem causar efeitos colaterais como náuseas, alterações no sono, queda de pressão e, em casos específicos, sintomas psicóticos.
Para validar a eficácia de intervenções farmacológicas, a equipe planeja um ensaio clínico randomizado, duplo-cego e controlado por placebo com cerca de 100 participantes. O objetivo será verificar se a potencialização da função dopaminérgica reduz a apatia, a lentidão motora e os problemas de memória verbal.