Ciência

Estudo com moscas da fruta indica que memórias esquecidas podem persistir como rastros silenciosos no cérebro

20 de Outubro de 2026 às 06:25 3 min de leitura

Pesquisadores do Friedrich Miescher Institute identificaram que memórias em moscas da fruta podem persistir como rastros silenciosos, sendo reativadas por elementos contextuais. O estudo, publicado na Nature Neuroscience, demonstrou que o esquecimento não elimina a informação e que a recuperação desses dados pode gerar memórias falsas

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Estudo com moscas da fruta indica que memórias esquecidas podem persistir como rastros silenciosos no cérebro
Tima Miroshnichenko/Pexels

Pesquisadores do Friedrich Miescher Institute for Biomedical Research, na Suíça, identificaram que memórias aparentemente apagadas podem persistir no cérebro como marcas ocultas, capazes de ser reativadas sob condições específicas. O estudo, publicado na Nature Neuroscience, utilizou a Drosophila melanogaster (mosca da fruta) para demonstrar que o esquecimento não implica necessariamente a eliminação de informações, mas sim a perda da capacidade de tais lembranças guiarem o comportamento.

O mecanismo do rastro silencioso

Para a investigação, a equipe liderada por Wenbin Yang, Benedetta Zattera e Miguel Pavão-Delgado condicionou as moscas a evitarem um odor específico após associarem a fragrância a uma leve descarga elétrica. Após 24 horas, os insetos deixaram de apresentar a reação de evitação, indicando que a memória havia sido esquecida. Contudo, ao serem retornadas ao ambiente original do aprendizado, as moscas recuperaram o comportamento de esquiva.

A reativação dessa memória não ocorreu apenas pelo odor, mas exigiu a reprodução de elementos contextuais, como a iluminação e a textura do ambiente. Através do monitoramento da atividade cerebral, os cientistas notaram que, enquanto o sinal neuronal que comanda a ação de evitar o odor diminuía, surgia simultaneamente uma marca em neurônios que não possuem a capacidade de alterar o comportamento por conta própria.

Esse fenômeno foi batizado de rastro silencioso de memória. A análise sugere que o cérebro não transfere a informação entre grupos de neurônios durante o esquecimento, mas cria, desde o início, duas representações da experiência: uma ativa, que direciona a ação imediata, e outra oculta.

A formação de memórias falsas

O estudo revelou ainda que o processo de recuperação de informações armazenadas pode ser impreciso. Durante a fase de treinamento, as moscas foram expostas a um segundo odor que nunca foi acompanhado por descargas elétricas. Quando os pesquisadores utilizaram esse aroma inofensivo como gatilho para a lembrança, os animais passaram a evitá-lo, tratando-o como se fosse o estímulo aversivo.

Essa reação indica que o cérebro reconstruiu a experiência de forma incorreta, gerando uma memória falsa. Embora as vias neuronais utilizadas nessa reconstrução errônea fossem distintas das vias de recuperação da memória correta, o resultado foi a criação de uma associação inexistente.

Embora os resultados ofereçam novos insights sobre a natureza das memórias inacessíveis, os autores ressaltam que as conclusões, obtidas com moscas da fruta, não podem ser aplicadas diretamente à memória humana. O trabalho indica, porém, que o esquecimento pode ser apenas um impedimento temporário para que certas marcas cerebrais controlem as ações do organismo.

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