Ciência

Estudo da UFRJ indica que proteína do coronavírus pode causar dores persistentes no organismo

30 de Agosto de 2026 às 18:00 3 min de leitura

Pesquisadores da UFRJ identificaram que a proteína Spike do SARS-CoV-2 pode causar dor persistente e hipersensibilidade no sistema nervoso, independentemente da replicação viral. O estudo, publicado na revista Brain, Behavior, and Immunity, indica que a resposta inflamatória local ativada pela proteína gera alterações na medula espinhal

-0:00
Estudo da UFRJ indica que proteína do coronavírus pode causar dores persistentes no organismo
Pexels

Pesquisadores da Faculdade de Farmácia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) identificaram que a proteína Spike, componente da superfície do vírus SARS-CoV-2, é capaz de desencadear quadros de dor persistente, mesmo após a cessação da inflamação inicial. O estudo, publicado na revista Brain, Behavior, and Immunity, revela que a proteína pode induzir hipersensibilidade no sistema nervoso sem a necessidade de replicação viral.

A investigação partiu da observação de que entre 15% e 20% dos pacientes com COVID-19 apresentam dores musculares na fase aguda, e até 40% mantêm esses sintomas por meses após a recuperação, caracterizando a chamada COVID longa.

Mecanismos de hipersensibilidade

Durante os experimentos com camundongos, a proteína Spike foi administrada em uma das patas dos animais. O processo resultou em inchaço e inflamação local que desapareceram em até uma semana. No entanto, a sensibilidade à dor permaneceu, manifestando-se como reações intensas a estímulos térmicos e mecânicos, que se estenderam inclusive para a pata oposta.

Os dados indicam que a proteína não ativa os neurônios sensoriais de forma direta nem provoca lesões neuronais. A hipersensibilidade ocorre, na verdade, por meio da resposta inflamatória desencadeada pela Spike.

Diferenças biológicas e resposta imune

O estudo apontou distinções entre os sexos biológicos: a resposta dolorosa inicial foi observada apenas nas fêmeas, embora o inchaço e a dor persistente tenham se desenvolvido posteriormente em ambos os sexos.

Para compreender a origem do sintoma, a equipe analisou componentes do sistema imunológico e identificou a seguinte cadeia de eventos:

  • Proteína TLR4: Essencial para o reconhecimento de sinais de infecção; animais que não produzem essa proteína não apresentaram inflamação nem dor persistente.
  • Células de defesa: Fagócitos e células T atuaram na manutenção da resposta inflamatória.
  • Citocinas: O interferon-gama (IFN-γ) mostrou-se fundamental, pois sua ausência tornou a inflamação e a hipersensibilidade significativamente mais brandas.

A conclusão é que a resposta imunológica local, ativada pela proteína Spike, expande-se para a medula espinhal, onde alterações inflamatórias prolongadas mantêm a percepção da dor.

Implicações para o tratamento

Embora o modelo experimental utilize a proteína isolada e não a infecção viral completa, a descoberta demonstra que a Spike, por si só, consegue criar uma "memória" no sistema de processamento da dor semanas após a inflamação inicial.

O trabalho contou com a colaboração de pesquisadores da Fiocruz, King’s College de Londres, Universidade do Vale do Itajaí (UNIVALI) e Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), integrando o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Inovação em Medicamentos e Identificação de Novos Alvos Terapêuticos (INCT-INOVAMED). A pesquisa recebeu apoio da FAPERJ, CNPq, CAPES e Newton Fund/The Royal Society.

Notícias Relacionadas