Ciência

Estudo da Unicamp indica que 33% dos profissionais do setor sucroenergético apresentam sinais de sofrimento mental

19 de Julho de 2026 às 09:06

Estudo da Unicamp indica que 33% dos profissionais do setor sucroenergético na Região Metropolitana de Campinas apresentam sinais de sofrimento mental. Os maiores índices de fadiga e transtornos foram registrados entre trabalhadores de atividades manuais, com 50% de fadiga elevada entre as mulheres

Um estudo desenvolvido na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) revelou que 33% dos profissionais do setor sucroenergético na Região Metropolitana de Campinas (RMC) apresentam sinais de sofrimento mental. A pesquisa, conduzida pela fisioterapeuta Beatriz Machado de Campos Corrêa Silva, identificou a presença de transtornos mentais comuns, termo que engloba sintomas como irritabilidade, ansiedade, cansaço persistente, alterações no sono e dificuldade de concentração.

A tese de doutorado, defendida em fevereiro de 2026 na Faculdade de Ciências Médicas (FCM), analisou 100 trabalhadores para mapear a saúde de quem permanece no setor após a mecanização do corte da cana. O instrumento utilizado consistiu em um questionário de 20 perguntas, cujo objetivo é sinalizar a necessidade de avaliações clínicas mais profundas, e não fornecer um diagnóstico definitivo.

Vulnerabilidade no trabalho braçal

Os dados demonstram que a natureza da função impacta diretamente a saúde psíquica e física. Os profissionais que realizam atividades manuais, conhecidos como diaristas, registraram os maiores índices de fadiga e sofrimento mental. Nesse grupo, 43,5% apresentaram sinais de transtornos mentais comuns e 32,3% manifestaram fadiga elevada.

Em contrapartida, os motoristas apresentaram índices significativamente menores: 11,8% para transtornos mentais e 5,9% para fadiga. A disparidade ocorre porque os diaristas assumem as tarefas mais penosas, como a aplicação de herbicidas e o replantio manual em áreas onde as colheitadeiras não conseguem operar, geralmente em locais onde a cana está caída ou emaranhada.

Impacto de gênero e condições laborais

A pesquisa evidenciou uma diferença marcante entre os sexos no que diz respeito ao esgotamento físico. Enquanto 18,6% dos homens apresentaram fadiga elevada, esse número sobe para 50% entre as mulheres. O estudo associa esse resultado à sobrecarga decorrente da soma da jornada profissional com as responsabilidades domésticas e familiares. No entanto, a incidência de sinais de transtornos mentais comuns foi similar entre os gêneros, atingindo 33,7% dos homens e 28,6% das mulheres.

Durante o acompanhamento da rotina nos canaviais, a pesquisadora observou precariedades estruturais que agravam a situação dos trabalhadores:

  • Higiene e alimentação: Ausência de lavatórios adequados para a limpeza das mãos antes das refeições.
  • Descanso: Áreas precárias para alimentação e repouso, além de banheiros distantes.
  • Equipamentos: Profissionais que aplicam herbicidas carregam bombas de aproximadamente 20 quilos sob exposição solar, chegando a estender as roupas de proteção sobre a cana para secarem durante os intervalos.

Desafios de fiscalização e saúde

A análise aponta que a distância das áreas rurais dificulta a supervisão e a fiscalização do trabalho. Além disso, observou-se que os trabalhadores tendem a naturalizar situações de risco ou sofrimento, tratando acidentes e sintomas psíquicos como parte normal da rotina no campo.

Para mitigar esse cenário, a pesquisadora sugere que as equipes de saúde ocupacional adotem uma postura mais próxima da realidade diária do campo, indo além das avaliações clínicas burocráticas. Outra proposta é a implementação de horários diferenciados nos serviços de saúde, permitindo que o trabalhador busque assistência médica sem a necessidade de faltar ao serviço.

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