Ciência

Estudo da USP e de Harvard identifica mecanismo genético para tratar a anemia falciforme

05 de Novembro de 2026 às 06:02 3 min de leitura

Pesquisadores da USP e de Harvard identificaram que a redução da proteína BACH2 estimula a produção de hemoglobina fetal, o que pode auxiliar no tratamento da anemia falciforme. O estudo, publicado na revista Nature, analisou dados genéticos de 28.279 pessoas e confirmou a eficácia do mecanismo em testes laboratoriais

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Estudo da USP e de Harvard identifica mecanismo genético para tratar a anemia falciforme
Estudo da USP e Harvard identifica como a proteína BACH2 controla a hemoglobina fetal e abre caminho para pesquisas sobre anemia falciforme. – Imagem: Ilustrativa via I.A

Um estudo internacional, realizado por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) e de Harvard, identificou um mecanismo genético que pode abrir novas frentes no tratamento da anemia falciforme. A descoberta, publicada em 30 de setembro de 2026 na revista Nature, revela que a redução da atividade de uma proteína chamada BACH2 estimula a produção de hemoglobina fetal (HbF) em células humanas.

A hemoglobina fetal é a proteína responsável pelo transporte de oxigênio durante a gestação, sendo naturalmente substituída pela hemoglobina adulta após o nascimento. No entanto, a manutenção de níveis elevados dessa proteína em adultos é benéfica para quem possui doenças hereditárias do sangue. No caso da anemia falciforme, a HbF impede que os glóbulos vermelhos assumam o formato de foice — consequência de uma alteração genética que torna as células rígidas e prejudica a circulação, causando crises de dor e danos a órgãos. O mesmo princípio de proteção é relevante para o tratamento da beta-talassemia.

O papel da proteína BACH2 e a interação genética

Para mapear a variação nos níveis de hemoglobina fetal entre diferentes indivíduos, a equipe analisou dados genéticos de 28.279 pessoas de ancestralidades europeia, africana e asiática. A análise revelou 91 associações genéticas em 12 regiões do genoma, com destaque para o gene BACH2. Observou-se que pessoas com variantes específicas nessa região produziam menos da proteína BACH2 e, consequentemente, mantinham maiores concentrações de hemoglobina fetal.

Em testes laboratoriais com células humanas de formação sanguínea, os cientistas confirmaram que a BACH2 atua como um "freio" natural, limitando a ativação dos genes da HbF. O estudo detalhou que, ao diminuir a ação da BACH2, outra proteína, a NRF2, consegue atuar com mais intensidade no DNA para ativar a produção da hemoglobina fetal.

Novas possibilidades terapêuticas

A descoberta é significativa por revelar uma via de controle independente da proteína BCL11A, que já é alvo de terapias gênicas autorizadas nos Estados Unidos. Os pesquisadores observaram que a redução simultânea da BACH2 e da BCL11A resultou em um aumento de hemoglobina fetal superior ao obtido quando cada proteína era inibida isoladamente.

Apesar do potencial para futuras terapias combinadas, a aplicação clínica exige cautela. Como a BACH2 desempenha funções em outros processos do organismo, a interferência em sua atividade pode gerar efeitos colaterais indesejados em células não relacionadas ao sangue.

O trabalho, que contou com a participação de Ester Cerdeira Sabino e Carla Luana Dinardo, da Faculdade de Medicina da USP, ainda se encontra em fase de análise genética e experimentos celulares. A próxima etapa da pesquisa focará na segurança de interferir nesse mecanismo e na avaliação de sua eficácia em pacientes, sem que isso altere, no momento, os protocolos médicos vigentes para a anemia falciforme.

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