Estudo da USP e do Inpe indica que a crise climática ameaça a recarga de aquíferos brasileiros
Estudo do IGc-USP e Inpe indica que a crise climática pode reduzir a recarga de aquíferos em quase todo o Brasil. O Sistema Aquífero Bauru-Caiuá apresenta o cenário mais crítico, com possível queda de até 666 milímetros anuais na recarga subterrânea
A crise climática ameaça reduzir significativamente a recarga natural dos aquíferos em quase todo o território brasileiro, comprometendo a oferta de águas subterrâneas. A conclusão é fruto de um estudo realizado por cientistas do Instituto de Geociências da Universidade de São Paulo (IGc-USP) e do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), publicado em agosto de 2025 pela Agência FAPESP.
Para chegar a esses resultados, a pesquisa utilizou modelos de balanço hídrico baseados em geoprocessamento e dados do CMIP6 — o conjunto mais recente do Programa Mundial de Pesquisa Climática. A análise projetou, entre 2025 e 2100, as alterações de temperatura, precipitação, escoamento superficial e recarga de aquíferos sob dois cenários de emissões.
O Sistema Aquífero Bauru-Caiuá, que abrange áreas de São Paulo, Minas Gerais, Goiás e Mato Grosso do Sul, apresentou o cenário mais crítico. Nas regiões mais afetadas, a recarga subterrânea pode sofrer uma redução de até 666 milímetros por ano. Essa queda impacta diretamente o abastecimento municipal, a irrigação agrícola e a manutenção de ecossistemas fluviais nos quatro estados.
O Cerrado desempenha um papel central nesse processo por atuar como a principal reserva hídrica do Brasil. O bioma abriga oito das doze maiores bacias hidrográficas do país — incluindo as bacias Amazônica, do Prata, do São Francisco, do Araguaia-Tocantins, do Parnaíba e do Atlântico — e concentra três dos maiores sistemas aquíferos do continente: Guarani, Urucuia e Bambuí. A vegetação nativa, com raízes que podem ultrapassar 15 metros de profundidade, cria canais que facilitam a infiltração da água da chuva, mantendo a porosidade do solo. Além disso, 57% da área do bioma está sobre rochas sedimentares porosas, o que favorece o armazenamento de água e garante o fluxo dos rios em períodos de seca.
A substituição da vegetação nativa por pastagens ou monoculturas, como a soja, altera a hidrologia do solo. Sem as raízes profundas e com a compactação causada por máquinas e gado, a água da chuva deixa de infiltrar e passa a escoar superficialmente. Isso intensifica as enchentes na época chuvosa e reduz o nível dos aquíferos e a vazão dos rios durante a seca.
A mudança no regime de chuvas agrava a situação. Mesmo em regiões como o Sudeste, onde o volume total de precipitação pode não variar drasticamente, a distribuição torna-se irregular. Períodos de seca mais longos intercalados por chuvas intensas e concentradas favorecem o escoamento superficial, pois a água atinge o solo mais rápido do que a capacidade de absorção do terreno. Como a água leva de dois a três meses para atravessar camadas de 10 a 15 metros de solo, eventos pluviais rápidos interrompem a dinâmica de recarga.
Essa vulnerabilidade afeta diferentes sistemas. O Aquífero Guarani sofre a pressão do desmatamento e da atividade agrícola em suas zonas de recarga. Já o Aquífero Urucuia, essencial para o Rio São Francisco, é impactado pela expansão agrícola no MATOPIBA, o que prejudica o abastecimento de milhões de pessoas no semiárido.
O Cerrado já perdeu cerca de metade de sua vegetação nativa e atualmente lidera a proporção anual de desmatamento no Brasil, superando a Amazônia. O impacto hídrico desse processo é gradual: a infiltração cessa no momento do desmate, mas a queda nos níveis dos aquíferos e a redução da vazão dos rios manifestam-se apenas anos depois.
Como solução, o estudo aponta a Recarga Manejada de Aquíferos (MAR), técnica utilizada em países como Austrália, Israel e Emirados Árabes Unidos. O método consiste em induzir a infiltração de água da chuva ou esgoto tratado por meio de bacias de infiltração, barragens de retenção e sistemas de injeção direta. No Brasil, a técnica ainda não integra uma política nacional estruturada.
A pesquisa indica que, embora os processos e soluções sejam conhecidos cientificamente, a implementação em escala ainda não é prioridade nas políticas públicas de infraestrutura hídrica. Sem mudanças, o país poderá enfrentar a diminuição da disponibilidade de água subterrânea em um momento de crescimento da demanda para o consumo urbano, a agricultura e a geração de energia.