Ciência

Estudo de DNA indica que povos pré-históricos priorizavam a caça de fêmeas de mamutes-lanosos

02 de Agosto de 2026 às 09:02

Análise de DNA de 521 animais revelou que povos pré-históricos da Eurásia e América do Norte caçavam preferencialmente fêmeas de mamutes-lanosos. Em sítios arqueológicos de cinco países, 70% dos espécimes eram fêmeas, contra 34% em depósitos naturais

Estudo de DNA indica que povos pré-históricos priorizavam a caça de fêmeas de mamutes-lanosos
Reuters/Roselle Chen/

Povos pré-históricos da Eurásia e da América do Norte exerciam uma caça seletiva de mamutes-lanosos, priorizando a abate de fêmeas. A descoberta foi feita por meio da análise de DNA antigo de 521 animais, cobrindo um período de aproximadamente 50 mil anos.

O estudo comparou ossos encontrados em ambientes naturais com aqueles acumulados em 11 sítios específicos, localizados na Rússia, Alemanha, República Tcheca, Áustria e Polônia. Enquanto nos depósitos naturais 66% dos espécimes eram machos e 34% fêmeas, nos locais de acúmulo a proporção se inverteu: 70% dos animais eram fêmeas.

Estratégias de caça e comportamento animal

A preferência pelas fêmeas pode estar ligada à organização social da espécie. Semelhante aos elefantes modernos, os rebanhos de mammuthus primigenius eram provavelmente matriarcais, compostos por fêmeas adultas e filhotes. Esse comportamento torna os deslocamentos do grupo mais previsíveis e sazonais, facilitando a localização pelos caçadores, ao contrário dos machos adultos, que tendem a ser solitários e a circular por áreas mais extensas.

Outros fatores biológicos e táticos contribuíram para essa escolha:

  • Porte físico: Fêmeas adultas eram menores, pesando cerca de 4 toneladas e medindo 2,9 metros, enquanto os machos chegavam a 6 toneladas e 3,4 metros de altura.
  • Proteção da prole: A presença de filhotes pode ter feito com que as fêmeas relutassem em fugir, tornando a manada um alvo mais acessível.
  • Uso do terreno: Caçadores nômades utilizavam a geografia a seu favor, conduzindo os animais para pântanos, lama ou penhascos para imobilizá-los antes do ataque com flechas, dardos ou lanças.

Importância dos recursos e evidências arqueológicas

A caça era motivada pela alta rentabilidade do animal. Um único mamute fornecia grandes volumes de carne e gordura, além de pele para vestimentas. Os ossos e presas serviam para a fabricação de armas, ferramentas e arte, enquanto as estruturas ósseas maiores eram empregadas na construção de abrigos.

Um exemplo significativo dessa atividade é o sítio de Kraków Spadzista, no sul da Polônia. Datado de 25 mil a 30 mil anos atrás, o local abriga restos de mais de 100 mamutes, ferramentas de pedra e marcas de esquartejamento. Em diversos sítios, foram encontradas pontas de projéteis cravadas nos ossos, confirmando a ação humana.

Extinção e anomalias genéticas

Os mamutes desapareceram da Eurásia e América do Norte entre 10 mil e 12 mil anos atrás, durante o aquecimento climático do fim da Era Glacial, que substituiu as pradarias por tundra úmida e florestas. A última população sobreviveu na Ilha de Wrangel, na costa da Sibéria, extinguindo-se há cerca de 4 mil anos.

Durante a análise genética, os pesquisadores identificaram um exemplar da Ilha de Wrangel com mosaicismo X0/XX. Essa condição, análoga à síndrome de Turner em humanos, resultou em um animal que não era biologicamente macho nem fêmea. Ainda não se sabe se tal anomalia foi causada pelo pequeno tamanho e endogamia daquela população isolada ou se foi um evento isolado de desenvolvimento.

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