Estudo identifica assinaturas moleculares do envelhecimento compartilhadas entre humanos, primatas e roedores
Estudo com primatas e roedores identificou assinaturas moleculares do envelhecimento e da mortalidade comuns a mamíferos. A pesquisa desenvolveu relógios transcriptômicos para estimar a idade biológica e o risco de óbito com base na atividade gênica. Os modelos validaram a influência de intervenções, como a restrição calórica, no ritmo de desgaste celular
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Um amplo estudo sobre envelhecimento biológico identificou assinaturas moleculares da mortalidade e do desgaste celular compartilhadas entre humanos, macacos, ratos e camundongos. A pesquisa, intitulada “Universal transcriptomic hallmarks of mammalian ageing and mortality”, integrou a análise da atividade gênica (transcriptomas) de mais de 25 tecidos diferentes, abrangendo 6.626 amostras de primatas e 4.539 de roedores, com dados provenientes de 96 fontes distintas.
A investigação revelou que o envelhecimento dos mamíferos é marcado por um padrão consistente: a redução de genes ligados ao metabolismo energético, fosforilação oxidativa e respiração celular, acompanhada pelo aumento de genes associados à senescência celular e à inflamação sistêmica. Entre os marcadores genéticos identificados, destacam-se o CDKN1A, o LGALS3 e o CASP1, relacionados à interrupção do ciclo celular, apoptose e danos celulares.
A partir desses dados, os cientistas desenvolveram "relógios transcriptômicos", modelos capazes de estimar a idade biológica, a idade cronológica — com correlação de 0,94 em relação à idade real — e o risco de mortalidade. A metodologia permitiu a criação de relógios específicos para módulos biológicos, possibilitando a medição separada do envelhecimento mitocondrial, metabólico, inflamatório, da matriz extracelular e ligado à cromatina. Essa segmentação evidenciou que diferentes partes do organismo envelhecem em ritmos distintos.
Os modelos foram aplicados para prever os efeitos de diversas intervenções. Em animais submetidos à restrição calórica, observou-se a redução da idade transcriptômica, especialmente em funções mitocondriais e no metabolismo de aminoácidos e lipídios. Em contrapartida, camundongos com deficiência do gene Klotho, proteína essencial para a regulação metabólica e longevidade, apresentaram alterações profundas em vias energéticas e aumento da idade transcriptômica. O estudo também incluiu análises de modelos com exercício, dietas ricas em gordura, síndrome de progeria e o uso de fármacos como rapamicina, acarbose e canagliflozina.
A análise demonstrou que diferentes formas de dano celular convergem para mecanismos de deterioração semelhantes, como a ativação de genes de estresse e a resposta ao interferon. Para validar a relevância clínica em humanos, os pesquisadores utilizaram dados do UK Biobank, constatando que proteínas derivadas dos genes LGALS3 e CDKN1A estão associadas a um pior estado de saúde e maior mortalidade.
No campo preventivo, a endocrinologista Carolina Janovsky, professora da UNIFESP, associa a perda de eficiência das mitocôndrias — que atuam como usinas de energia das células — à dificuldade do organismo em controlar a inflamação. A médica defende que a manutenção de um padrão alimentar baseado em "comida de verdade", com fibras vegetais, proteínas de qualidade, gorduras boas e baixo consumo de ultraprocessados e açúcar, é fundamental para mitigar a inflamação crônica. Janovsky menciona ainda que a vacinação, como no caso do herpes zoster, pode atuar na prevenção de processos inflamatórios, citando que evidências científicas apontam esse vírus como um possível fator protetor contra a demência.
Embora os autores ressaltem que os relógios transcriptômicos podem monitorar terapias antienvelhecimento e intervenções farmacológicas, eles reconhecem limitações no trabalho. O estudo possui caráter observacional em parte de suas análises e apresenta heterogeneidade entre os bancos de dados e as técnicas experimentais, demandando a realização de pesquisas adicionais com populações humanas mais amplas.