Ciência

Estudo identifica microplásticos e poluentes químicos em profundidades da Bacia de Santos

21 de Maio de 2026 às 12:22

Pesquisadores do IO-USP e do Ipen detectaram microplásticos e poluentes químicos em sedimentos e organismos entre 400 e 1.500 metros de profundidade na Bacia de Santos. O estudo, publicado na Marine Pollution Bulletin, identificou PCBs, PBDEs e resíduos industriais em peixes e invertebrados. A análise apontou maior concentração de plásticos no sistema digestório do pepino-do-mar Deima validum

Estudo identifica microplásticos e poluentes químicos em profundidades da Bacia de Santos
Microplásticos no oceano brasileiro ameaçam vida marinha e ampliam alerta sobre poluição oceânica

Pesquisadores do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (IO-USP) e do Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen) identificaram a presença de microplásticos e poluentes químicos em sedimentos e organismos em profundidades que variam entre 400 e 1.500 metros na Bacia de Santos. Localizada a cerca de 140 quilômetros da costa brasileira, a região revelou a infiltração de contaminantes em áreas do mar profundo, que tecnicamente se inicia a partir dos 200 metros de profundidade.

O estudo, publicado na revista *Marine Pollution Bulletin* e divulgado pelo IPEN em 20 de maio de 2026, baseou-se em análises de peixes, invertebrados e sedimentos coletados em setembro e novembro de 2019 pelo navio oceanográfico Alpha Crucis. A investigação detectou a presença de poluentes orgânicos persistentes (POPs), especificamente PCBs nos sedimentos e tanto PCBs quanto PBDEs nos peixes analisados.

Quanto aos resíduos plásticos, foram encontrados poliamida e poliacrilonitrila, materiais comuns na indústria têxtil, além de poliestireno, polissulfeto e poliariletercetona, utilizados em aplicações industriais de alta resistência. Os cientistas apontam que a contaminação pode ter origem em resíduos transportados por correntes marítimas e pela atmosfera, mas também relacionam a possibilidade de influência de atividades *offshore*. Atualmente, a área conta com cinco plataformas operacionais, com a previsão de que outras seis iniciem atividades até 2027.

A análise evidenciou que organismos filtradores e detritívoros são os mais vulneráveis à ingestão desses materiais. O pepino-do-mar *Deima validum*, que se alimenta de partículas depositadas no fundo do oceano, apresentou a maior concentração de microplásticos no sistema digestório entre as nove espécies de invertebrados estudadas. A persistência desses poluentes no ambiente por décadas pode acarretar impactos na saúde dos organismos, como a bioacumulação de toxinas e a interferência em processos fisiológicos.

Para assegurar a integridade dos dados, a equipe adotou protocolos rigorosos contra a contaminação externa, incluindo o uso de roupas sem fibras sintéticas, controle constante do ar e das superfícies laboratoriais e instrumentos específicos. O trabalho foi desenvolvido por Gabriel Stefanelli-Silva durante seu doutorado no IO-USP, com apoio da FAPESP, e contou com a coordenação de Paulo Sumida, do Laboratório de Ecologia e Evolução de Mar Profundo.

A pesquisa integra o projeto “Diversidade e evolução de peixes de oceano profundo (DEEP-OCEAN)”, coordenado pelo professor Marcelo Roberto Souto de Melo via Programa Biota (FAPESP). O grupo de pesquisa possui experiência prévia em análises de organismos da Antártica coletados entre 1984 e 2016, tendo identificado, em um estudo anterior, a fibra de microplástico mais antiga daquela região, encontrada nas vísceras de um crustáceo em 1986.

Os resultados reforçam que a poluição oceânica atinge ecossistemas remotos e profundos do Atlântico Sul, evidenciando a necessidade de ampliar o monitoramento ambiental em zonas de exploração marítima para compreender os efeitos da biodiversidade e a origem dos contaminantes.

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