Ciência

Estudo identifica três biotipos cerebrais distintos no Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade

26 de Maio de 2026 às 15:09

Estudo publicado na revista JAMA Psychiatry identificou três biotipos cerebrais distintos no TDAH em crianças, baseando-se em ressonância magnética e análise de neurotransmissores. A pesquisa, conduzida por universidades da China, Estados Unidos e Austrália, propõe a classificação do transtorno por fundamentos neurobiológicos em vez de comportamentos

Estudo identifica três biotipos cerebrais distintos no Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade
Getty Images / BBC

Um estudo publicado em fevereiro de 2026 na revista *JAMA Psychiatry* propõe uma mudança na compreensão do Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH), sugerindo que a condição não é única, mas composta por três perfis cerebrais distintos, denominados "biotipos". A pesquisa, conduzida por universidades da China, Estados Unidos e Austrália, questiona a abordagem atual do manual DSM, que classifica o transtorno com base em comportamentos observáveis, como desatenção e impulsividade, em vez de fundamentos neurobiológicos.

Liderada pelo pesquisador Qiyong Gong, da Universidade de Sichuan, a equipe utilizou ressonância magnética estrutural em crianças com média de 11 anos. O grupo principal contou com 446 crianças com TDAH e 708 sem o transtorno, com os resultados posteriormente validados em um segundo grupo de 554 crianças diagnosticadas. Para identificar os padrões, os cientistas aplicaram a modelagem normativa — técnica que compara o desenvolvimento cerebral do indivíduo com uma curva de crescimento padrão — e algoritmos de redes de similaridade morfométrica, que mapeiam a estrutura e o volume de diferentes regiões do cérebro.

O ponto central da descoberta foi a identificação dos três biotipos sem o uso de informações clínicas prévias, baseando-se exclusivamente em dados cerebrais.

O primeiro biotipo, considerado o mais grave, envolveu 142 crianças e apresentou alterações no pálido e no córtex pré-frontal medial, áreas ligadas à tomada de decisão e regulação comportamental. Esse grupo manifestou níveis intensos de desatenção e hiperatividade, destacando-se pela dificuldade persistente em controlar emoções, como raiva e frustração, além de maior incidência de quadros de ansiedade e depressão.

O segundo biotipo, o mais numeroso com 177 crianças, concentrou alterações no córtex cingulado anterior e no pálido, circuitos responsáveis pela inibição de comportamentos. Nesse perfil, a hiperatividade e a impulsividade prevaleceram sobre a desatenção, com a regulação emocional apresentando melhora ao longo do tempo.

O terceiro biotipo reuniu 127 crianças e apresentou desvios cerebrais menos extensos, localizados principalmente no giro frontal superior, região associada à memória de trabalho e atenção sustentada. Clinicamente, a desatenção foi o sintoma dominante.

A análise química revelou que cada perfil possui disfunções em neurotransmissores diferentes. O biotipo 1 envolveu dopamina, serotonina e acetilcolina; o biotipo 2 apresentou alterações no sistema endocanabinoide e no glutamato; já o biotipo 3 mostrou alterações mais restritas ligadas à serotonina. Essa distinção é relevante porque os medicamentos convencionais para TDAH, como o metilfenidato, atuam prioritariamente na dopamina e noradrenalina, o que levanta a hipótese de que pacientes com perfis dominados por outras substâncias, como o glutamato, possam não responder da mesma forma ao tratamento padrão.

Apesar do avanço, a pesquisa possui limitações. A amostra foi predominantemente masculina (76% dos participantes com TDAH eram meninos) e os exames foram transversais, não acompanhando a evolução dos biotipos ao longo dos anos. Especialistas ressaltam que a plasticidade neuronal permite que um indivíduo transite entre esses subtipos durante o desenvolvimento cerebral, que ocorre até os 30 anos. Além disso, a baixa acessibilidade da neuroimagem em sistemas de saúde pública dificulta a aplicação imediata desses achados na rotina clínica.

O estudo estabelece as bases para a medicina de precisão na psiquiatria, visando ajustar intervenções ao perfil neurobiológico de cada paciente. No entanto, a implementação de tratamentos específicos para cada biotipo ainda depende de ensaios clínicos prolongados para validar se a diferenciação biológica resulta, efetivamente, em respostas terapêuticas distintas.

Notícias Relacionadas