Ciência

Estudo indica que a maioria das terapias complementares para fertilização in vitro carece de evidências científicas

24 de Junho de 2026 às 09:14

Revisão da Universidade de Melbourne indica que sete de dez terapias complementares para fertilização in vitro não possuem comprovação científica de eficácia. O estudo, publicado na The Lancet, aponta que a raspagem endometrial, a técnica PICSI e o EmbryoGlue apresentam sinais promissores, embora limitados. A análise descartou 72 de 157 ensaios clínicos por falhas metodológicas

Estudo indica que a maioria das terapias complementares para fertilização in vitro carece de evidências científicas
Arquivo Pessoal

Uma revisão internacional liderada pela Universidade de Melbourne, na Austrália, revelou que a maioria das terapias complementares oferecidas para aumentar as chances de sucesso da fertilização in vitro (FIV), conhecidas como "add-ons", carece de evidências científicas robustas de benefício. O estudo, publicado na revista *The Lancet Obstetrics, Gynaecology & Women's Health*, analisou dez desses procedimentos amplamente utilizados em clínicas de reprodução assistida, constatando que sete deles não apresentam comprovação de melhora nas taxas de gravidez ou de nascimento.

Entre as intervenções sem evidências convincentes estão a acupuntura, o uso de corticoides, a infusão de intralipídios, o teste de receptividade endometrial (ERA) e a aplicação de plasma rico em plaquetas (PRP) tanto nos ovários quanto no útero. O levantamento destacou a situação do teste genético pré-implantacional para aneuploidias (PGT-A), um procedimento comum globalmente, mas que, segundo os dados de maior qualidade analisados, não elevou as taxas de nascimento.

Apenas três dos dez procedimentos avaliados mostraram sinais promissores, embora os pesquisadores ressaltem que as evidências ainda são limitadas. A raspagem endometrial, que consiste em criar uma pequena lesão no revestimento do útero antes da transferência do embrião, foi associada a um aumento de cerca de 20% na chance relativa de nascimento vivo. Já a técnica PICSI, voltada à seleção de espermatozoides, não elevou significativamente os nascimentos, mas reduziu em aproximadamente 42% o risco relativo de aborto espontâneo. O EmbryoGlue, meio de transferência enriquecido com ácido hialurônico, indicou aumento nas taxas de gravidez, porém sem robustez quanto ao número de nascidos vivos.

A pesquisa evidencia um cenário crítico, visto que mais de 70% dos pacientes de FIV na Austrália, Nova Zelândia e Reino Unido utilizam ao menos um desses complementos. Sarah Lensen, líder do estudo, pontua que a oferta de terapias não comprovadas impõe pressão financeira desnecessária e gera falsas expectativas em pacientes que já enfrentam um período delicado.

Um ponto central da análise foi o rigor metodológico na seleção das fontes. Dos 157 ensaios clínicos inicialmente elegíveis, 72 foram descartados por falhas metodológicas, ausência de registro prévio ou problemas de integridade de dados. A exclusão de quase metade das pesquisas disponíveis aponta para uma fragilidade generalizada na qualidade dos estudos de medicina reprodutiva.

A análise é corroborada por especialistas independentes, como María Jiménez Movilla, da Universidade de Murcia, que defende a necessidade de maior supervisão regulatória para evitar que interesses comerciais prevaleçam sobre a ciência. Francisco Domínguez, da Fundação IVI e do IIS La Fe, valida o rigor da revisão, embora observe que a falta de evidências sólidas não comprova necessariamente a ineficácia dos procedimentos, mas sim a carência de pesquisas de alta qualidade.

Os autores do estudo reconhecem limitações, como o uso de um instrumento de avaliação de confiabilidade ainda não validado formalmente e a presença de viés em algumas pesquisas incluídas devido ao tamanho reduzido das amostras, o que modera a certeza das conclusões finais.

Com informações de G1

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