Ciência

Estudo indica que excesso de atividade física mantém níveis de dopamina elevados no cérebro

30 de Outubro de 2026 às 06:00 3 min de leitura

Estudo de pesquisadores brasileiros publicado na revista Neuroscience indica que a sobrecarga física prolongada mantém a concentração de dopamina elevada no hipocampo de camundongos. A análise revelou a permanência do neurotransmissor e da enzima tirosina hidroxilase até 48 horas após o teste de desempenho

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Estudo indica que excesso de atividade física mantém níveis de dopamina elevados no cérebro
Tima Miroshnichenko/Pexels

A prática excessiva de atividades físicas pode provocar alterações na regulação química do cérebro, mantendo a concentração de dopamina elevada mesmo durante os períodos de repouso. A descoberta, detalhada em estudo de pesquisadores brasileiros publicado na revista Neuroscience, indica que a sobrecarga física prolongada impacta o sistema nervoso central, e não apenas a musculatura.

Os experimentos foram conduzidos com camundongos divididos em dois grupos. O primeiro foi submetido a um esforço agudo, correndo em esteiras até a exaustão. O segundo grupo passou por um protocolo que simulava a rotina de atletas de alto rendimento com a síndrome de overtraining: oito semanas de treinamento com aumento progressivo de carga, chegando a duas sessões diárias com apenas quatro horas de intervalo para recuperação.

Alterações no hipocampo

A análise cerebral revelou que, enquanto o grupo de esforço agudo apresentou aumento de dopamina logo após a corrida, os animais expostos ao treinamento prolongado mantiveram níveis elevados do neurotransmissor e da enzima tirosina hidroxilase — responsável por sua produção — até 48 horas após o teste de desempenho.

Um ponto central da observação foi a localização dessas mudanças no hipocampo. Segundo Alisson Luiz da Rocha, pesquisador de pós-doutorado na Universidade de Michigan e primeiro autor do estudo, a região é associada às emoções e à memória, não possuindo ligação direta com os sistemas de movimento.

Hipóteses sobre a regulação química

A dopamina é fundamental para o estado de alerta e para a sensação de prazer, mas os pesquisadores ressaltam que o problema não é a substância, e sim o desequilíbrio em sua regulação. O grupo levantou três hipóteses para explicar por que a substância permaneceu alta durante o descanso:

  • Adaptação ao estresse: O cérebro pode ter passado por uma nova configuração devido ao padrão de treinos intensos, elevando a produção da tirosina hidroxilase.
  • Processos inflamatórios: O excesso de exercício aumenta substâncias inflamatórias no organismo, que podem interferir no sistema dopaminérgico.
  • Ciclo biológico: A presença da substância no momento errado sugere uma falha no relógio biológico do organismo.

Durante a análise, não foram encontradas diferenças significativas nos níveis de serotonina entre os grupos. O resultado indica que a fadiga associada ao exercício excessivo não pode ser atribuída a um único neurotransmissor, demandando a investigação de outros mecanismos biológicos.

Implicações e limitações da pesquisa

Os achados oferecem subsídios para entender a síndrome de overtraining, condição marcada por fadiga crônica, perda de desempenho, dores musculares e maior risco de lesões. Embora a dopamina, a serotonina e o hipocampo sejam semelhantes em humanos e camundongos, o estudo apresenta limitações: a amostra foi composta apenas por machos, a dosagem foi feita no tecido cerebral (podendo diferir do funcionamento em tempo real) e a síndrome envolve sintomas subjetivos que não podem ser relatados por animais.

Ainda não foi comprovado que esse mecanismo ocorra em seres humanos, nem que o aumento de dopamina cause diretamente insônia ou ansiedade. Contudo, a pesquisa sugere que a ausência de recuperação adequada pode comprometer a saúde mental.

O próximo passo da investigação será aprofundar os mecanismos de afetação cerebral em animais e buscar marcadores sanguíneos que permitam o diagnóstico precoce ou a prevenção da síndrome.

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