Estudo indica que medicamentos contra o Alzheimer removem placas amiloides de forma irregular no cérebro
Estudo da Universidade da Pensilvânia publicado na JAMA revelou que o fármaco aducanumab removeu placas de beta-amiloide de forma irregular no cérebro de um paciente. A análise de autópsia mostrou a eliminação de proteínas nas circunvoluções, enquanto os sulcos mantiveram depósitos e sinais de neurodegeneração
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A análise de uma autópsia cerebral revelou que a eficácia de medicamentos para a remoção de placas de beta-amiloide não ocorre de maneira uniforme no cérebro, o que pode explicar a modesta resposta clínica de algumas terapias contra o Alzheimer. O estudo, publicado na revista JAMA, baseou-se no exame do cérebro de um paciente que participou de um ensaio clínico e recebeu o fármaco aducanumab durante quatro anos e meio.
O paciente, que desenvolveu declínio cognitivo leve por volta dos 50 anos, faleceu cerca de quatro anos após a última dose do medicamento. A doação do órgão permitiu que pesquisadores da Universidade da Pensilvânia cruzassem os dados da autópsia com imagens de exames realizados durante o tratamento.
Distribuição irregular de depósitos proteicos
A investigação identificou a formação de um "mosaico" cerebral. Nas áreas das circunvoluções (cristas dos sulcos cerebrais), houve a eliminação de grande parte das placas de beta-amiloide e a presença de baixa quantidade de proteína tau. Em contrapartida, os sulcos situados entre essas circunvoluções mantiveram depósitos abundantes de amiloide, acompanhados de maior degeneração do tecido cerebral, danos neuronais e inflamação.
Essa disparidade indica que o anticorpo teria maior facilidade de acesso às regiões superficiais, falhando em penetrar com a mesma eficiência nas camadas mais profundas do córtex. De acordo com o neuropatólogo Edward B. Lee, a situação permitiu observar, em um único indivíduo, a coexistência de regiões que eliminaram o amiloide e outras que não responderam ao tratamento.
Impacto na neurodegeneração
Os dados mostraram que as zonas com menor concentração de beta-amiloide também apresentavam um ritmo de atrofia reduzido e menor carga de ovilhos de tau. Já as regiões onde as placas persistiram exibiram sinais mais intensos de neurodegeneração. David Wolk, do Centro de Pesquisa da Doença de Alzheimer da Penn, afirmou que a observação desses dois padrões lado a lado possibilitou compreender como a remoção do amiloide influencia outras proteínas ligadas à doença.
Embora a descoberta sugira que a remoção do amiloide possa retardar a acumulação de tau, o estudo possui limitações por envolver apenas um paciente. Por isso, não é possível definir a quantidade de placas necessária para gerar melhora clínica, nem comprovar que a redução dos depósitos resulte em mudanças efetivas na memória, no raciocínio ou no humor.
Janela de tratamento e eficácia
O autor principal do estudo, Christopher A. Brown, destacou que o momento da intervenção é crucial, visto que o amiloide se acumula anos antes dos sintomas iniciais. A hipótese é que a remoção precoce dessas proteínas possa limitar as alterações que danificam as células cerebrais.
As próximas etapas da pesquisa focarão em entender a razão da resposta variável entre as regiões cerebrais e se a intervenção antes da propagação da proteína tau pode elevar a eficácia de futuras terapias contra o Alzheimer.