Ciência

Estudo indica que mutações genéticas reduziram a capacidade de europeus de digerirem insetos

31 de Agosto de 2026 às 15:06 2 min de leitura

Pesquisadores do Instituto de Biologia Evolutiva identificaram que a baixa ingestão de insetos no norte da Eurásia decorre de mutações genéticas que reduzem a digestão da quitina. O processo ocorreu há cerca de 9.000 anos, diferindo da dieta de neandertais e de populações de zonas tropicais

-0:00
Estudo indica que mutações genéticas reduziram a capacidade de europeus de digerirem insetos
iStock

A aversão ao consumo de insetos em populações europeias pode ter sido moldada por processos evolutivos iniciados há cerca de 9.000 anos. Um estudo conduzido por pesquisadores do Instituto de Biologia Evolutiva (IBE), centro vinculado à Universidade Pompeu Fabra e ao CSIC, identificou que a baixa ingestão desses animais no norte da Eurásia está ligada a adaptações genéticas e ecológicas, e não apenas a barreiras culturais.

Para chegar a essa conclusão, a equipe analisou 745 amostras de cálculo dental de humanos anatomicamente modernos, com datações de até 33.000 anos. O sarro acumulado nos dentes atua como um arquivo biológico, preservando fragmentos de DNA dos alimentos consumidos ao longo de séculos. A análise revelou que os habitantes do norte da Eurásia raramente incluíam insetos em sua dieta regular.

Genética e a digestão da quitina

A investigação focou nos genes responsáveis pela digestão da quitina, substância fundamental na composição do exoesqueleto dos insetos. Foi observado que as populações do norte da Eurásia possuem mutações que reduzem a capacidade de processar esse material.

Esse padrão genético consolidou-se há aproximadamente 9.000 anos, período que coincide com a expansão da agricultura e a reestruturação das formas de obtenção de alimento. De acordo com Pablo Librado, pesquisador principal do IBE, a menor oferta de insetos em latitudes elevadas pode ter diminuído o interesse por esses organismos como fonte nutricional, resultando em uma perda gradual da capacidade digestiva.

Comparação com Neandertais e Denisovanos

O cenário era distinto para os neandertais. A análise de seus cálculos dentários mostrou uma presença de DNA de insetos significativamente maior, com níveis semelhantes aos encontrados em chimpanzés ocidentais. Os registros genéticos mais comuns foram de dípteros (grupo que engloba moscas e mosquitos), o que sugere que esses hominídeos consumiam carcaças de animais que continham larvas.

Além da dieta, a genética dos neandertais e de um indivíduo denisovano analisado indica uma aptidão superior para digerir exoesqueletos de insetos. Esse traço também é observado em populações humanas situadas em zonas tropicais, que mantêm variantes genéticas associadas a uma maior produção das enzimas CHIA e CTBS, essenciais para a degradação da quitina.

Os dados indicam que a baixa disponibilidade de insetos em regiões não tropicais foi um fator determinante para o abandono desse hábito alimentar, levando a uma adaptação biológica que reflete a atual resistência ocidental ao consumo de insetos.

Notícias Relacionadas