Estudo indica que o microbioma do endométrio influencia a fertilidade feminina e a receptividade uterina
Estudo chinês publicado na Cell Host & Microbe indica que a redução de bactérias como o Lactobacillus gasseri no endométrio está associada ao envelhecimento reprodutivo feminino. A pesquisa com 149 mulheres revelou que a abundância de Lactobacillus correlaciona-se a proteínas de receptividade uterina e ao sucesso de gravidezes clínicas. Testes pré-clínicos em camundongos e células humanas mostraram que a bactéria e seus pós-bióticos reduzem a inflamação e o estresse oxidativo no útero
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A redução da reserva ovariana e a queda na qualidade de óvulos e embriões são as explicações tradicionais para o envelhecimento reprodutivo feminino. No entanto, um estudo publicado na revista Cell Host & Microbe indica que o microbioma do endométrio — a camada interna do útero onde o embrião é implantado — também desempenha um papel crucial na fertilidade.
Pesquisadores da China observaram que o avanço da idade reprodutiva está associado a uma diminuição progressiva de bactérias benéficas, com destaque para a espécie Lactobacillus gasseri.
Relação entre microbiota e receptividade uterina
A investigação analisou amostras do endométrio de 149 mulheres entre 20 e 45 anos em tratamento para infertilidade, divididas em três faixas etárias: menores de 30 anos, entre 30 e 35 anos e acima de 35 anos. Os dados revelaram que mulheres mais jovens possuem uma quantidade significativamente maior de Lactobacillus.
Embora a diversidade geral da microbiota não tenha sofrido alterações drásticas, houve a substituição de espécies específicas conforme a idade avançava. Em uma segunda análise comparando mulheres com menos de 30 anos e acima de 40 anos, constatou-se que as mais jovens apresentavam maior expressão de proteínas essenciais para a receptividade do endométrio, como LIF e HOXA10, coincidindo com a maior presença de Lactobacillus.
Impacto na taxa de gravidez
Durante o acompanhamento de um ano, 93 participantes passaram por transferência de embriões, resultando em 56 gravidezes clínicas. Embora as taxas de gravidez não tenham variado significativamente entre as idades, a análise interna de cada grupo mostrou que mulheres que engravidaram possuíam maior abundância de Lactobacillus no endométrio, especialmente a espécie Lactobacillus crispatus.
Em contrapartida, aquelas que não conseguiram a gestação apresentavam maior concentração de Gardnerella vaginalis e Lactobacillus iners. Esses achados sugerem que a composição da microbiota uterina pode servir como um indicador complementar à idade da paciente para prever o sucesso da transferência embrionária.
Potencial terapêutico do Lactobacillus gasseri
Para identificar a melhor opção terapêutica, cinco espécies de Lactobacillus foram testadas quanto à atividade antioxidante, efeito anti-inflamatório, capacidade de adesão às células do endométrio e produção de compostos bioativos. O Lactobacillus gasseri apresentou o melhor desempenho, com alta produção de exopolissacarídeos (EPS) e eficácia contra microrganismos patogênicos.
A eficácia da bactéria foi testada em camundongos com idade reprodutiva avançada, resultando em:
- Redução de marcadores de senescência celular e estresse oxidativo;
- Diminuição da fibrose no tecido uterino;
- Aumento da atividade de mecanismos antioxidantes naturais;
- Maior taxa de implantação embrionária e elevação de proteínas essenciais para a preparação do útero.
O papel dos pós-bióticos
A pesquisa também investigou os EPS, moléculas produzidas pelo Lactobacillus gasseri conhecidas como pós-bióticos. Em células humanas do endométrio envelhecidas artificialmente, esses compostos reduziram a inflamação e o estresse oxidativo, melhorando a decidualização (processo vital para a implantação do embrião).
Os cientistas comprovaram a função dos EPS ao criar uma versão da bactéria incapaz de produzir tais moléculas, o que eliminou a maior parte dos benefícios. A restauração ocorreu quando os EPS purificados foram administrados. O mecanismo de ação ocorre, em parte, via modulação da via de sinalização Hippo-YAP, importante para o controle do envelhecimento celular.
Limitações e recomendações
Embora os resultados sugiram que restaurar populações de Lactobacillus ou utilizar pós-bióticos possa ser uma estratégia futura para melhorar a função do endométrio, os autores ressaltam que o estudo é pré-clínico.
A pesquisa possui limitações, como a realização em um único centro, a amostra restrita a mulheres chinesas com infertilidade e a baixa densidade bacteriana do endométrio, o que aumenta o risco de contaminação das amostras. Como não foi comprovado que as alterações da microbiota sejam a causa direta da infertilidade, os pesquisadores alertam que mulheres não devem utilizar produtos à base de Lactobacillus gasseri sem orientação médica, pois a eficácia clínica ainda requer ensaios em humanos.