Estudo indica que o núcleo da Terra libera metais preciosos para as camadas superiores do planeta
Pesquisadores da Universidade de Göttingen identificaram a liberação de metais preciosos, como ouro e rutênio, do núcleo da Terra para as camadas superiores. A descoberta, publicada na revista Nature, baseou-se na análise de rochas basálticas do Havaí. O estudo indica a existência de trocas materiais entre o núcleo e o manto terrestre

Pesquisadores da Universidade de Göttingen, na Alemanha, identificaram indícios de que o núcleo da Terra libera pequenas quantidades de metais preciosos, como ouro e rutênio, para as camadas superiores do planeta. O estudo, publicado na revista Nature e apresentado em 21 de maio de 2025, contou com a participação do geoquímico Nils Messling e traz novas evidências sobre a dinâmica interna terrestre.
A análise focou em rochas basálticas escuras do Havaí, originadas por plumas de magma que ascendem das profundezas. Nessas amostras, a equipe detectou a presença de rutênio, um dos elementos mais raros da Terra. O ponto central da descoberta reside na composição isotópica desse metal, que não coincide com a de meteoritos ou com materiais habituais do manto, levando os cientistas a concluírem que a substância provém da fronteira entre o núcleo e o manto.
Historicamente, acredita-se que durante a formação da Terra, há cerca de 4,5 bilhões de anos, o planeta estava em estado líquido, o que fez com que elementos pesados como platina, ouro e rutênio afundassem para o centro. Esse processo resultou na retenção de mais de 99,95% dos metais preciosos no núcleo terrestre antes do resfriamento e solidificação da crosta. Embora meteoritos ricos nesses metais tenham atingido a superfície há bilhões de anos, a análise do rutênio nas rochas havaianas permitiu diferenciar a origem desses elementos, indicando que parte do material não veio da superfície ou de impactos externos.
Estruturalmente, o núcleo da Terra possui uma parte interna sólida de ferro e níquel, com raio de 1.221 quilômetros, e um núcleo externo líquido envolto pelo manto. Na zona de contato entre essas camadas, o calor intenso pode criar plumas de rocha superaquecida que transportam traços de metais pesados até regiões vulcânicas. De acordo com o coautor Matthias Willbold, esse mecanismo explica a formação de ilhas oceânicas como o Havaí, transformando as rochas vulcânicas em arquivos naturais do interior profundo do planeta.
A descoberta valida uma hipótese discutida há quatro décadas de que o núcleo não é completamente isolado do manto. Apesar da diferença de densidade entre as camadas, comparada por Messling à relação entre óleo e água, os sinais nas rochas sugerem a existência de trocas materiais. Estima-se que esse processo possa levar entre 500 milhões e 1 bilhão de anos para se completar, possivelmente ocorrendo desde os primórdios da história terrestre.
A relevância do estudo foi destacada por Jesse Reimink, da Pennsylvania State University, e Helen Williams, da Universidade de Cambridge, que apontaram a pesquisa como uma nova via para compreender a evolução interna do planeta e a contribuição do núcleo para o manto.
Embora a descoberta tenha alto valor científico, ela não viabiliza a mineração. A quantidade de ouro encontrada nas rochas é extremamente reduzida e o núcleo permanece inacessível à tecnologia humana; o Poço Superprofundo de Kola, na Rússia, representa a perfuração mais profunda já realizada, mas ainda está distante dessa região. Atualmente, a ciência ainda não determinou o volume exato de ouro que chega à superfície nem o tempo preciso desse transporte, mas os dados confirmam que a Terra mantém uma dinâmica interna mais ativa do que se supunha.