Ciência

Estudo propõe nova explicação para o uso de calendário de 364 dias em Qumran

27 de Setembro de 2026 às 06:07 3 min de leitura

Estudo de Eshbal Ratzon, publicado na revista Tarbiz, indica que a comunidade de Qumran utilizou um calendário de 364 dias no século II a.C. O sistema, baseado em simetria matemática para fixar festividades, foi abandonado devido a erros astronômicos e mudanças no contexto político

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Estudo propõe nova explicação para o uso de calendário de 364 dias em Qumran
EFE/Shai Halevi

Uma análise conduzida por Eshbal Ratzon, da Universidade de Tel Aviv, propõe uma nova explicação para a utilização de um calendário de 364 dias pela comunidade religiosa de Qumran, conforme registrado nos Manuscritos do Mar Morto. O estudo, publicado na revista Tarbiz, investiga por que esse grupo manteve um sistema de contagem de tempo que divergia do ano solar e acumulava erros astronômicos anuais.

A lógica religiosa da precisão matemática

A escolha por um ano de 364 dias não era aleatória, mas baseada em uma simetria matemática: a duração total era divisível por sete, resultando em 52 semanas exatas. Essa estrutura garantia que as festividades religiosas ocorressem sempre nos mesmos dias da semana. Para os membros de Qumran, essa regularidade era a prova de que as datas haviam sido estabelecidas por Deus na Criação, o que os levava a rejeitar qualquer alteração feita pelas autoridades de Jerusalém.

No entanto, essa rigidez criava um conflito com a realidade astronômica. Como o ano de 364 dias é aproximadamente um dia e um quarto mais curto que o ano solar, o descompasso era inevitável. Em um período de 20 anos, as celebrações poderiam se deslocar quase quatro semanas em relação às estações do ano, afetando diretamente datas ligadas aos ciclos agrícolas, como as colheitas e a oferta dos primeiros frutos.

Evolução e abandono do sistema

A natureza desse calendário — se era aplicado no cotidiano ou se permanecia apenas como um modelo teórico — foi objeto de debate por décadas. Enquanto algumas teorias sugeriam a inserção de dias extras para correção, outras afirmavam que o sistema nunca foi implementado. Ratzon, porém, argumenta que não há evidências nos manuscritos para ambas as hipóteses, propondo que o calendário teve um ciclo de vida específico.

A reconstrução histórica sugere que o modelo de 364 dias foi utilizado na prática durante a fase inicial da comunidade, no século II a.C. Nesse período, a divergência sobre as datas sagradas teria sido um dos fatores que impulsionaram a ruptura de Qumran com as lideranças religiosas de Jerusalém. A relevância do tema é comprovada pela existência de cerca de 20 rolos dedicados à astronomia e calendários, incluindo o Livro dos Jubileus, que apresenta esse sistema como a norma entregue a Moisés no Monte Sinai e critica o modelo lunar.

A transição para o abandono do sistema teria ocorrido por dois motivos principais:

  • Erro acumulado: O desvio em relação às estações tornou-se evidente demais para ser ignorado.
  • Contexto político: A melhora nas relações com a dinastia asmonea, sob o governo de Alexandre Janneo, teria facilitado a adoção do calendário utilizado no Templo.

Segundo a pesquisadora, o modelo de 364 dias não foi totalmente descartado das crenças do grupo, mas deixou de ser uma ferramenta prática para se tornar um símbolo de identidade e um ideal religioso, justificando sua presença marcante nos textos, apesar de ter desaparecido da rotina histórica.

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