Estudo revela que a chegada de povos germânicos não substituiu a população da Península Ibérica
Análise de 243 genomas antigos indica que a chegada de povos germânicos à Península Ibérica não causou substituição populacional. Estudo publicado na revista Cell aponta a predominância da diversidade genética do período romano. A pesquisa identificou a mobilidade de elites germânicas e a preservação da base demográfica local
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A análise de 243 genomas antigos, provenientes de 31 sítios arqueológicos, revelou que a queda do Império Romano e a subsequente chegada de povos germânicos à Península Ibérica não resultaram em uma substituição populacional generalizada. O estudo, publicado na revista Cell, demonstra que a diversidade genética estabelecida durante o período romano permaneceu predominante, mesmo após a ascensão de novas elites dirigentes.
A pesquisa foi conduzida por especialistas do Instituto de Biologia Evolutiva (CSIC-UPF), do Museu de Ciências Naturais de Barcelona e das universidades de Harvard e do País Basco, reconstruindo a evolução genética da região entre os séculos I e VIII.
Vínculos familiares e migrações germânicas
Um dos achados mais significativos do estudo foi a identificação de dois irmãos, migrantes germânicos de primeira geração, sepultados a 725 quilômetros de distância um do outro. Uma jovem nobre foi encontrada em Ildum, em Castellón, em uma antiga estação romana da Via Augusta, datada do século V. Seu túmulo continha joias de ouro, como agulhas para prender o vestido, típicas da aristocracia germânica.
A análise do DNA extraído de um dente da jovem confirmou que ela era irmã de um homem enterrado em Mérida. O rapaz estava localizado na necrópole de Los Blanes, ao lado de mulheres nobres conhecidas como as princesas suevas de Mérida, algumas das quais utilizavam adornos de ouro semelhantes aos encontrados em Castellón.
Embora a causa das mortes e o motivo da separação geográfica dos irmãos permaneçam desconhecidos, há hipóteses de que a jovem possa ter integrado alianças políticas entre grupos de poder ou acompanhado lideranças em campanhas militares.
A herança genética do Império Romano
Os dados genéticos evidenciam que a mobilidade populacional era intensa durante a era romana. Cerca de 83% dos indivíduos analisados desse período possuíam ascendência ligada ao Mediterrâneo oriental. Além disso, foi detectada uma contribuição genética relevante do norte da África, especialmente no sudeste da península, onde essa característica estava presente em 33 dos 34 indivíduos estudados.
Impacto demográfico das invasões
Apesar da reorganização política trazida por suevos, vândalos, alanos e visigodos, o impacto demográfico desses grupos foi inferior à base populacional pré-existente. A diversidade genética da época romana foi preservada por grande parte dos habitantes.
Essa integração é exemplificada por uma das princesas suevas de Mérida, cuja análise genética revelou ascendência local. O dado sugere a existência de vínculos entre as comunidades hispanorromanas e as aristocracias germânicas, reforçando a tese de que as mudanças de poder político não implicaram a substituição da população residente.