Estudo revela que a personalidade humana continua a evoluir ao longo da vida adulta
Estudo publicado na Communications Psychology indica que os traços de personalidade do modelo big five evoluem ao longo da vida adulta. A pesquisa com 166.971 pessoas revelou que tais mudanças são subestimadas e ocorrem em níveis comparáveis a oscilações de renda e saúde
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A percepção comum de que a personalidade humana se estabiliza na vida adulta é contestada por evidências científicas. Um estudo publicado na revista Communications Psychology, do grupo Nature, revela que os traços comportamentais continuam a evoluir ao longo dos anos, apresentando alterações mais frequentes do que se acreditava anteriormente.
A pesquisa, conduzida por instituições da Alemanha e pelas universidades de Zurique e Texas A&M, focou no modelo big five, que organiza a personalidade em cinco dimensões principais: extroversão, amabilidade, conscienciosidade, neuroticismo e abertura à experiência.
Metodologia e análise de dados
Para chegar a esses resultados, os cientistas estruturaram a investigação em duas etapas distintas:
- Percepção Individual: Um grupo de 887 adultos dos Estados Unidos, com diversidade de raça, idade e sexo, avaliou como imaginavam que os cinco traços de personalidade e outras 20 variáveis mudariam entre os 15 e os 90 anos.
- Dados Reais: A equipe analisou bases de dados longitudinais de 166.971 pessoas residentes na Holanda, Austrália, Alemanha e Estados Unidos. Nessa fase, as mudanças reais nos cinco traços foram comparadas a quase 30 outras variáveis.
Evolução da personalidade vs. Percepção
Os dados demonstram que o desenvolvimento dos cinco traços de personalidade ao longo da vida ocorre de forma comparável — e, em diversos cenários, superior — às oscilações observadas em indicadores como autoestima, renda, saúde subjetiva e satisfação com a vida.
Houve uma discrepância consistente entre a realidade e a percepção dos participantes: as mudanças acumuladas nas dimensões da personalidade foram subestimadas. No entanto, os autores esclarecem que essa evolução não implica em uma transformação completa da identidade do indivíduo, mas sim em alterações nos níveis médios desses traços.
Impactos da crença na imutabilidade
A ideia de que a personalidade é rígida após as fases iniciais da vida predominou durante grande parte do século 20. O estudo sugere que essa visão é alimentada por fatores culturais, sociais e cognitivos, já que as pessoas tendem a categorizar os outros rapidamente e interpretar comportamentos futuros com base em expectativas prévias, ignorando mudanças reais.
Essa crença na estabilidade pode gerar consequências práticas, como a redução da motivação para o desenvolvimento pessoal, tornando esforços de transformação menos realistas e diminuindo o suporte a intervenções terapêuticas ou comportamentais.
Limitações do estudo
Os pesquisadores ressaltam que a amostra foi composta exclusivamente por populações de países democráticos e ocidentais, o que impede a generalização dos resultados para outras culturas, onde fatores históricos e sociais podem influenciar a percepção sobre a personalidade.
Além disso, a análise focou em mudanças médias, o que não abrange a totalidade das diferenças individuais, já que a intensidade da mudança varia de pessoa para pessoa. O trabalho indica que investigações futuras devem explorar novas formas de mensurar a estabilidade e a mutabilidade do comportamento humano.